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quarta-feira, 15 de março de 2017

PS – Sem dúvida, os bolsonaretes prefeririam que o “Bolsomito” fosse julgado pela primeira instância, né? Iria demorar uma enormidade até a segunda instância ao menos…

Entenda-se o título acima: sem uma justificativa plausível, é evidente que será condenado, com as consequências disso decorrentes
Por Reinaldo Azevedo -  Os bolsonaristas espalham a farsa de que, naquele dia 9 de dezembro de 2014, quando Bolsonaro associou estupro a uma distinção a que só as bonitas estariam afetas, ele apenas respondia a uma agressão de Maria do Rosário.
Tanto é assim que ele disse: “Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí! Há poucos dias, você me chamou de estuprador no Salão Verde, e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir”.
Como? Há poucos dias?
A questão é antiga. Quando Bolsonaro disse “há poucos dias, você me chamou de estuprador”, estava contando uma mentira. Aquilo tinha ocorrido em 2003, HAVIA JÁ, PORTANTO, 11 ANOS. Olhem a prova aqui.
Em 2003, de fato, foi Maria do Rosário quem primeiro
ofendeu o adversário — como ela costuma fazer, diga-se. A petista interrompeu
uma entrevista que Bolsonaro concedia à Rede TV!, em que defendia a maioridade
penal aos 16 anos (tese com a qual concordo), e o chamou de “estuprador”.
É evidente que se trata de uma boçalidade e de um crime.
Ocorre que a resposta de Bolsonaro, naquele 2003, foi também boçal (e ele viria
a repetir a frase 11 anos depois):
— Eu jamais iria estuprar você porque você não merece.
Ela o ameaçou com uma bofetada:
— Olhe eu que lhe dou uma bofetada!
— Dá, que eu lhe dou outra.
E, na sequência do bate-boca, o deputado acabou por
xingar Maria do Rosário de “vagabunda”. Então tá! Ela pode chamar um colega de
“estuprador”? Não! Ele pode afirmar que o estupro é matéria de “merecimento” —
e, o que é mais estarrecedor, nota-se que ele trata essa violência como uma
distinção positiva? É claro que não! Está tudo errado.
Atenção! A ação que corre no Supremo não se refere ao
caso de 2003, mas ao de 2014.
Digamos que eu considere a dupla, para usar uma expressão
de uma jornalista amiga, “imprópria para o consumo humano”. Mas vá lá, no calor
da hora, Maria do Rosário optou pela canalhice e o chamou de “estuprador”; ele
deu uma resposta igualmente canalha.
O que justifica, no entanto, que, 11 anos depois,
Bolsonaro repita a mesma agressão, do nada? Ah, vai ter de explicar ao Supremo
o que quis dizer exatamente. Seus partidários — deveria dizer “sicários”? — não
conseguem expor, digamos, em perífrases, qual é o sentido virtuoso, ou ao menos
neutro, de “[Maria do Rosário] não merece porque ela é muito ruim, porque
ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria.”
Agressão ampla
Bem entendido: a agressão não está em dizer que Maria do Rosário não merece ser
estuprada, como querem alguns sofistas de fancaria, mas em sugerir, então, que
muitas mulheres, que Maria do Rosário não são, merecem.
Que tal a sua mãe, leitor amigo? Ou a sua irmã? Ou a sua
mulher? Ou a sua namorada? Ou você mesma, eleitora bolsonarista e, claro, bela
(as feias fiquem tranquilas)…
Eis uma evidência que os, digamos, “bolsonaretes” não
conseguem negar, não importa a que falácia se apeguem ou a que argumento
apelem, saído da pena do “çábio” construtor de falácias, o velho perdigueiro
desdentado.
Bolsonaro considera Maria do Rosário desprezível, certo?
Tão desprezível, diz ele, que não mereceria nem mesmo ser estuprada. Logo, para
este senhor, sofrer um estupro é um merecimento de quem exibe as devidas
qualidades para tanto. Quais, senhor parlamentar? Quando é que uma mulher
“MERECE” ser estuprada?
É uma fala asquerosa, pela qual, que eu saiba, ele nem
mesmo se desculpou. Estou doido para ler a sua defesa. Quero que esclareça o
que quis dizer quando associou o estupro à meritocracia.
Cultura do estupro
Já entrei num debate renhido aqui e em toda parte sobre a chamada “cultura do
estupro”, que teria se revelado num episódio ocorrido no Rio em 2016. É claro
que isso é uma farsa inventada pelas esquerdas supostamente modernizadas.
Queriam só fazer um pouco de política. Por que os mesmos setores não se
mobilizaram em defesa da garota que foi violentada por quatro menores no Piauí?
Não se ouviu um pio. Afinal, ali se tratava de “proteger” menores…
Inexiste cultura do estupro no país. Isso é só coisa de
militância destrambelhada. O fato de eu ter essa opinião não deve se confundir
com a defesa da impunidade para pessoas que dizem as boçalidades que diz
Bolsonaro.
A mulher que concordar com o deputado tem de concordar
que, sob certas circunstâncias, qualquer uma “merece” ser estuprada, inclusive
ela própria. O homem que concordar com Bolsonaro terá de concordar que, sob
certas circunstâncias, sua própria parceira, filha ou mãe merecem ser
estupradas. Mais do que isso: terá de concordar que, sob condições tais e
quais, qualquer homem pode dar o que a tal mulher “merece” — sendo, pois, um
estuprador em potencial.
Será condenado. E 2018
Bolsonaro, entendo, não tem saída. Não vejo como possa ser absolvido. E, como
se nota no embargo declaratório, sua defesa não tem argumento a não ser aquele
que já foi rejeitado.
Se for condenado, perde o mandato, torna-se inelegível e
não poderá se candidatar à Presidência da República…
“Ah, é isso o que você quer, né, Reinaldo?”
Não!
Os meus quereres nesse caso nada têm a ver com a
candidatura deste senhor, que não considero uma ameaça. Eu só o vejo como
sintoma. Acho que tem de ser punido porque cometeu um crime.
Em 2016, no estilo característico, ele disse: “Me
fodi. Tomei de quatro a um [quatro ministros votaram contra ele e um a favor].
Estão querendo me tornar inelegível para as próximas eleições. Vou pagar pelo
estupro coletivo daquela menina no Rio”.
Errado! Ele se deu mal porque associou estupro a mérito;
porque estabeleceu categorias de mulheres que merecem e não merecem ser
violadas.
Ofendeu Maria do Rosário porque Maria do Rosário é
mulher. Mas ofendeu a todas as mulheres que Marias do Rosário não são.
Encerro
Ah, sim, eu poderia estar aqui vibrando em silêncio — “afinal, ele divide a
direita” —, mas superestimando o estatuto da imunidade parlamentar, quietinho,
para os bolsonaretes não saírem por aí atirando.
Pois é… Só sei fazer isso dizendo o que penso. E penso
que um criminoso tem de ser punido. Pouco me importam o jogo eleitoral e a
guerrilha promovida na Internet pelos sicários.
PS – Sem dúvida, os bolsonaretes prefeririam que o
“Bolsomito” fosse julgado pela primeira instância, né? Iria demorar uma
enormidade até a segunda instância ao menos…
Pô, que contradição, né? Eles são favoráveis ao fim do
foro especial porque, afinal, acham o STF o reino da impunidade… (Revista Veja)

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