domingo, 12 de julho de 2015

● Em Manaus o caboclo passeia com a família de canoa pelos canais no centro da cidade, que nem Veneza na Itália – Já em Belém os canais são só bosta, lixo e rato podre – Eu deveria era ter nascido no Amazonas, por Deus...

FAMÍLIA DE FEIRANTE APROVEITA A CHEIA PARA CURTIR O VISUAL DOS IGARAPÉS A BORDO DE UMA CANOA
Há dois anos a canoa foi adquirida, mas sempre ficou guardada no porto da Manaus Moderna e vigiada por moradores do local. Com a cheia deste ano, a história foi diferente e reservada novidades
ISABELLE VALOIS – A CRÍTICA
Quem se encanta com as cenas de filmes que mostram passeios de gôndola (barco pequeno, estilo canoa) em Veneza (Itália), viaja em pouco tempo com a apreciação, mas não precisar ir muito longe para ter uma sensação parecida. Aqui em Manaus há uma família moradora do Parque Residêncial Cachoeirinha, construído no Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), localizado na Raiz, Zona Sul, que realiza passeios parecidos durante a cheia dos rios. Mas, diferente dos filmes, a família do feirante Pedro Ramos da Silva, 63, realiza o passeio nas poluídas águas do igarapé do 40 em uma simples canoa.
Antes mesmo de a família de Pedro ser contemplada com o apartamento do conjunto habitacional, os filhos Sebastião Costa da Silva, 31 e Erivan Costa da Silva, 30 planejavam e juntavam dinheiro para comprar uma canoa para que os irmãos pudessem, nos finais de semana, sair um pouco da rotina da cidade e pescar.
Há dois anos a canoa foi adquirida, mas sempre ficou guardada no porto da Manaus Moderna e vigiada por moradores do local. Com a cheia deste ano, a história foi diferente e reservava novidades. Continue lendo...
Na garagem
Com a subida das águas os irmãos conseguiram atracar a canoa em frente ao apartamento da família, no próprio conjunto habitacional. “Foi uma festa quando os meus dois filhos conseguiram chegar em frente de casa com a canoa”, relembrou o feirante.
Com a canoa “estacionada” em frente de casa, não há tempo ruim. Se os netos de Pedro pegam os remos da canoa, a vizinhança, principalmente a meninada, corre para a beira do igarapé e aguarda por uma vaga na canoa. Mesmo que seja só para passear nas águas poluídas do igarapé do 40.
“Aqui é assim, se alguém resolve que quer da uma volta de canoa, aí quem tiver mais desocupado pega um remo ou outra coisa que possa ajudar e vamos embora passear. Às vezes só ficamos nos divertindo aqui nesta área do igarapé, infelizmente a água é completamente poluída”, comentou.
Desde que Erivan e Sebastião ‘aportar’ em casa com a canoa, os finais de semana também têm sido de diversão para a vizinhança. De acordo com Pedro, quando os filhos e os netos saem de casa com os remos, as crianças e outros moradores do residencial, que já sabem que pode haver uma vaga na canoa, vão ao encontro da família na beira do igarapé. Às vezes é necessário fazer mais de uma viagem para levar a turma da comunidade. “Quando todos estão em casa, meus filhos aproveitam para ir mais longe, como a balneários. Não gosto muito, então fico guardando a casa, mas sempre digo para eles que tem horário para retornar e eles me obedecem, pois sabem que só fico tranquilo quando todos estão em casa”, contou.
Paixão pela pesca é tradição familiar
O filho do feirante Pedro Silva, o motorista Erivan Costa, contou que desde crianças ele e irmão mais velho sempre tiveram paixão por pesca e antes, mesmo de o local onde moram se transformar em um Prosamim, a família tinha uma canoa, que foi furtada. Sair para pescar nos finais de semana era um costume, que ficou “esquecido” depois do furto e, agora, foi retomado.
“Desde que levaram a nossa canoa, eu e meu irmão colocamos na cabeça que iríamos comprar uma nova, pois a pesca sempre foi algo que tem passado de geração em nossa família. Fomos juntando o dinheiro, até porque para irmos aos balneários pagávamos R$ 5 de ida e depois mais R$ 5 de volta”, contou.
Depois de conseguirem comprar a canoa, os irmãos a pintaram de vermelho e preto, em homenagem ao time do coração, o Flamengo, mas resolveram deixa-la na área vigiada do porto da Manaus Moderna.
“Quando queríamos ir para os balneários toda a família tinha que ir de carro ou caminhando para o porto da Manaus Moderna e isso era cansativo, então em um dia de pesca eu e meu irmão resolvermos testar e ver até onde conseguíamos chegar com a canoa nas proximidades de nossa casa. Para a felicidade da família, conseguimos colocar nossa canoa em frente de casa e as pescarias viraram rotina”, detalhou.
O manejo da canoa vai passando por gerações na família do feirante. “Quando éramos criança, nosso pai nos ensinou a conduzir a canoa, agora são nossos filhos que estão aprendendo e, se deixar, todos os dias eles ficam na canoa horas e horas”, contou Erivan.
Fascínio quase atrapalhou estudos
Toda a família do feirante é do Município de Manaquiri (distante 60 quilômetros da capital) e a decisão de Pedro de mudar para Manaus foi para que os seis filhos pudessem estudar e ter mais chances na vida.
“Em Manaquiri, sempre pedia para os meninos irem à taberna em nossas canoas, lá existe essa facilidade. Mas quando chegamos em Manaus a realidade foi diferente e, como eles sentiam falta, resolvi levá-los para me acompanharem no trabalho”, explicou Pedro.
O feirante, que tinha duas voadeiras, observava que a cada dia ao lado do pai, Erivan e Sebastião se afastavam mais dos estudos. “Naquele tempo, atravessar as pessoas era uma forma de conseguir dinheiro fácil, então meus meninos associavam que, se eles fizessem o que mais gostavam, também iriam ganhar dinheiro, logo não iriam precisar estudar”, contou.
Pedro, então, resolveu vender as voadeiras e começou a trabalhar como feirante e, assim, os filhos voltaram a se dedicar aos estudos. “Desde que começaram a trabalhar já juntavam dinheiro para comprar a canoa e até hoje eles não a deixam de lado. Os meninos têm carro, mas preferem deixar ele de lado e seguir com a canoa”, disse. (A Crítica)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique a vontade para comentar o que quiser, apenas com coerência e sem ataques pessoais.