● PARA ‘GURU’ DO EXÉRCITO, JAIR BOLSONARO FAZIA ‘JOGO’ DA
ESQUERDA - Houve um tempo em que o general de brigada Sérgio Augusto de Avellar
Coutinho, um dos mais importantes pensadores militares, afirmava que o
presidente Jair Bolsonaro fazia “o jogo das esquerdas”. Para ele, a atuação
política do então capitão da reserva só servia “para reforçar uma campanha de
descrédito das Forças Armadas perante a opinião pública, comprometer a
respeitabilidade do militar e quebrar a coesão interna” do Exército. Coutinho
vinculava Bolsonaro a “iniciativas desastradas” que podiam desprestigiar a
autoridade dos chefes militares e “criar lideranças informais e hierarquias
paralelas”. O general – estudioso da guerra revolucionária – expressou-se assim
quando comandava o Centro de Informações do Exército (CIE), em 1989, em dois
Relatórios Periódicos Mensais do órgão – os de n.º 05/89 e 09/89. Nos anos
1980, o general foi um dos primeiros militares a difundir nas Forças Armadas
textos que abordavam a influência do pensador marxista Antonio Gramsci na
estratégia das esquerdas no Brasil. Na reserva, tornou-se uma espécie de “guru”
da direita no País. Coutinho publicou livros pela Biblioteca do Exército, como
Cenas da Nova Ordem Mundial e A Revolução Gramcista no Brasil. Dava palestras
no Clube Militar nas quais afirmava que “o marxismo cultural”, por meio da
criação de “um novo senso comum” ancorado no “politicamente correto”, criava o
“consenso na sociedade”. Este era interpretado como um instrumento para a
socialização do País, discurso que influenciaria o de Bolsonaro. O general
morreu em 2011. Alvo de suas críticas nos relatórios confidenciais do CIE,
Bolsonaro era então vereador – preparava a primeira candidatura a deputado
federal – e ocupava a vice-presidência da Federação das Associações de
Militares da Reserva. A Famir reunia militares inativos e pensionistas e
defendia as reivindicações dos militares. Coutinho não foi o único general que,
na época, criticava Bolsonaro. A atuação classista do capitão fez com que
tivesse a entrada proibida nos quartéis, após colidir com os ministros do
Exército Leônidas Pires Gonçalves (1985-1990) e Carlos Tinoco (1990-1992). Julgavam-no
inconsequente e intransigente. Ou, nas palavras de Coutinho, alguém que
“procurava semear um clima de discórdia, incompreensão e descrédito no público
interno”. Coutinho não se limitava a informar fatos nos relatórios do CIE. Ele
também fazia análises, um estilo que contrastava com os dos chefes anteriores
do centro, como o general Tamoyo Pereira das Neves. Desde 1987 até 1990 os
generais do CIE, por meio da Seção 102 (Informações) do órgão, produziram
documentos sobre Bolsonaro para os chefes militares e alimentaram seu
prontuário no centro: o de n.º 18658-5. Além de vigiar e acompanhar as
atividades de Bolsonaro, a inteligência militar também espalhava suas análises
e descobertas pelos quartéis. Na época de Coutinho, os relatórios mensais tinham
340 cópias, que eram distribuídas “até o nível de unidade” com o objetivo de
“difundir informações relacionadas à defesa interna”. Era praticamente o triplo
do que era feito no comando do general Tamoyo, seu antecessor. Assim, os textos
de Coutinho sobre Bolsonaro tiveram difusão ampla na Força, pois o general
acreditava que “o comandante de unidade tem o dever de manter seus homens
informados”. “A utilização de trechos (do relatório confidencial), desde que
preservado o sigilo da fonte, poderá ser feita para atingir os objetivos já
citados”. No relatório de maio de 1989, o texto sobre Bolsonaro (Compostura
Militar) dividia a página – a de número 6, com a assinatura de Coutinho no alto
– com outro sobre o líder do PT Luiz Inácio Lula da Silva – condenado e preso
na Lava Jato –, que tinha o título Desinformação. Um texto analisava o
“socialismo moreno” do ex-governador Leonel Brizola, a quem acusava de ter
usado nos anos 1960 recursos de Cuba para “alimentar movimentos
revolucionários”. Mais adiante, criticava o secretário-geral do PCB, Salomão
Malina, por não ter verdadeiramente desistido da luta armada para a tomada do
poder e ser financiado pela União Soviética. Em setembro, Coutinho escreveu que
a “permissividade da sociedade brasileira, pacientemente elaborada nos últimos
10 anos, através dos meios de comunicação social, infiltrados pela esquerda,
tem criado uma aceitação ‘sem preconceitos’ e ‘democrática’ de tudo: da
destruição da família ao desamor à Pátria, da tolerância ao crime à
complacência aos antigos terroristas”. Denunciou ainda “a radicalização do PT”
e concluía com a acusação a Bolsonaro – Fazendo o Jogo das Esquerdas II: Famir.
A inteligência do Exército chegou a se infiltrar na Famir. Em sigilo, pelos
menos três colegas de Bolsonaro, da turma de 1977 da Academia Militar das
Agulhas Negras, denunciaram sua atuação para o CIE. Seria pelo trabalho
silencioso – revelou um general ao Estado – de um dos maiores agentes da
história do CIE, o tenente-coronel João Noronha Neto, o Doutor Nilo, que começaria
a reconciliação da cúpula militar com Bolsonaro, um processo iniciado nos anos
1990 que só se concluiria no ano passado. O Estado procurou o Centro de
Comunicações do Exército e a Secretaria de Comunicação da Presidência da
República, mas eles não se manifestaram sobre os relatórios de Coutinho. (Estadão
Conteúdo)

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