Ao receber um mandatário que ostenta o fato de não ter
tomado vacinas como um troféu, e isso quando os Estados Unidos enfrentam uma
piora na pandemia devido à variante delta, a vergonha é dos Estados Unidos de
Joe Biden e da Nova York de Bill de Blasio. A vergonha é, principalmente, da
ONU. Bolsonaro afronta o combate à pandemia com atos e fatos e atravessa a
fronteira americana todo serelepe porque a ONU se mostrou incapaz de riscar o
chão diante da Rússia de Vladimir Putin, que se contrapôs com veemência à
intenção de barrar quem não estivesse vacinado. Bolsonaro também vai rir por
muito tempo pela façanha de abrir a assembleia do mais simbólico pilar da ordem
mundial após a Segunda Guerra disseminando mentiras explícitas. Aplicou na ONU
um deboche em nível planetário.
De nada adianta estampar no noticiário um Bolsonaro
patético, objeto de piadas e de charges na imprensa. Bolsonaro entrou nos
Estados Unidos sem vacina e este é o fato principal. Também pouco adianta fazer
matérias e análises provando que ele mentiu sobre quase tudo. Seus seguidores,
assim como uma parcela de não seguidores, considera tudo o que a imprensa
afirma como fake news e nem sequer a lê, assiste ou escuta. Parte do planeta, e
não só do Brasil, acredita que pode escolher o que é a verdade se a mentira lhe
convém. Também não está fácil, é necessário dizer, ouvir, assistir e ler
setores da imprensa repetindo coisas como “contrariando a expectativa da ala
moderada do governo, Bolsonaro não moderou o tom no discurso na ONU”. Sério que
ainda tem gente para afirmar expectativas do gênero como se acreditasse nisso?
É assim que ditadores eleitos como Bolsonaro destroem a
democracia desde dentro. Se os instrumentos democráticos e as instituições que
os representam são incapazes de impedir alguém como Bolsonaro de discursar sem
vacina, presencialmente, na ONU, para que servem? Do mesmo modo, se tudo o que
as instituições brasileiras conseguem produzir são (mais) discursos sobre como
Bolsonaro envergonha o país, em vez de usar os instrumentos democráticos
previstos na Constituição para impedi-lo de seguir governando, para que servem,
então?
Gostaria de afirmar que esse pesadelo acontece porque a
democracia e suas instituições não previram criaturas como Bolsonaro, mas seria
inaceitável ingenuidade sob qualquer ponto de vista, inclusive o histórico.
Bolsonaro é produto das deformações de uma democracia que nunca alcançou as
camadas mais desamparadas da população e é produto do cinismo do capitalismo
liberal. A cena com Boris Johnson é um exemplo disso. Supostamente o
primeiro-ministro britânico, um direitista caricato, teria dado um “puxão de
orelhas” em Bolsonaro por não tomar vacina, mas é só jogo de cena. O que
importa é que um sorridente BoJo apertou a mão de um sorridente Bolsonaro às
vésperas da Cúpula do Clima de Glasgow, apesar de o presidente brasileiro estar
levando a maior floresta tropical do planeta ao ponto de não retorno.
Bolsonaro está onde está porque as corporações e os
governos que as representam ainda faturam e têm vantagens com ele na
presidência. Bolsonaro está onde está porque grande parte do empresariado
brasileiro, assim como dos especuladores, acredita que ainda pode obter mais
lucro com ele no poder do que fora dele. Ao mostrar o dedo médio aos
manifestantes contra Bolsonaro, Marcelo Queiroga afirmou a verdade mais
profunda da Assembleia Geral da ONU. E agora o ministro da Saúde do país que
beira os 600 mil mortos por covid-19 descansa em um hotel de luxo de Nova York
enquanto faz quarentena por, claro, ter testado positivo para o vírus.
Assim caminha a democracia e seus pilares globais. E
ainda há quem se surpreenda que morram, esquecendo-se que para morrer é
necessário primeiro estar vivo."

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