quarta-feira, 18 de junho de 2025

A solução para o Brasil é promover políticas que integrem o país de forma justa, combatendo a desigualdade e investindo em melhorias que beneficiem toda a nação.

● DOIS BRASIS E O SUBDESENVOLVIMENTO AO QUADRADO - Governador de Santa Catarina, Jorginho Mello é um reacionário. Falando para uma planteia de autoridades do sul do país, Mello mostrou porque calado é um poeta. Ele disse: "Daqui a pouco, se o negócio não funcionar muito bem lá para cima, nós passamos uma trena para o lado de cá e fazemos 'o Sul é nosso país', né?".

A proposta de separação do Brasil em um “Brasil do Sul” e um “Brasil do Norte” não é nova, mas é fundamental analisá-la sob uma perspectiva crítica. A crença de que tal divisão resultaria em um país rico no sul e um país pobre no norte é uma simplificação que ignora a complexidade socioeconômica do Brasil e os desafios que ambos os novos países enfrentariam. Mais importante ainda, essa perspectiva está imbuída de preconceitos que revelam uma visão elitista e discriminatória da realidade brasileira.

● Interdependência econômica

Primeiramente, é importante destacar que a economia brasileira é altamente interdependente. O Sul do Brasil, que inclui regiões mais desenvolvidas como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, depende de diversas fontes de recursos e mercado que se encontram nas regiões Norte e Nordeste. Por exemplo, a indústria do sul depende da agricultura, que é amplamente desenvolvida em outras partes do país, especialmente na produção de commodities como soja, milho e carne.

Se o país fosse dividido, o Sul perderia o acesso a insumos agrícolas, além de um mercado amplo e diversificado. Isso acarretaria um aumento nos custos de produção e uma inflação significativa, que, por sua vez, afetaria a qualidade de vida da população.

● Desigualdades regionais persistentes

Além disso, um olhar mais atento às estatísticas revela que a separação não resolveria as desigualdades regionais. O Sul possui um PIB per capita mais elevado, mas isso não se traduz em uma riqueza homogênea. Ao contrário. Reflete apenas uma maior concentração de renda. Municípios do Sul, como são os casos de algumas cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, enfrentam desafios como a baixa previdência social e alta taxa de desemprego em áreas específicas, enfrentando um êxodo de jovens de cidades menores para as capitais.

Por outro lado, as regiões Norte e Nordeste, por mais que tenham índices de desenvolvimento humano (IDH) mais baixos, são ricas em recursos naturais e potencial para crescimento econômico. Com a separação, essas áreas poderiam se tornar dependentes de economias de subsistência, aprofundando uma espiral de pobreza, sem acesso a investimentos ou políticas de desenvolvimento semelhantes às que têm no Brasil atual.

● Riqueza e crescimento sustentável

Outro ponto a ser considerado é que a riqueza de um país não se mede apenas pelo PIB, mas também pela distribuição de recursos, infraestrutura e oportunidades. A separação criaria não apenas uma divisão geográfica, mas a provável segmentação de redes de educação, saúde e serviços públicos. Os custos de implementação de novos sistemas de governança, além da possível instabilidade política, gerariam enormes dificuldades econômicas para ambos os lados.

Por exemplo, se considerarmos a Receita Per Capita dos estados, em 2021, o Rio Grande do Sul (R$ 22.559) e Santa Catarina (R$ 21.548) têm uma média mais elevada que o Maranhão (R$ 11.718) e a Paraíba (R$ 12.299), mas todos esses estados enfrentam desafios comuns, como a pobreza e a falta de oportunidades em diversas localidades, tanto na periferia das grandes cidades quanto em municípios menores, do interior. A separação não garantiria a redistribuição da riqueza, mas criaria duas nações com dificuldades estruturais e menos competitivas no cenário global.

● Consequências sociais e políticas

A proposta de dividir o Brasil também ignora os impactos sociais e políticos que essa mudança acarretaria. Do ponto de vista social, a ruptura de uma nação unida poderia intensificar o ressentimento entre as populações. A história mostra que divisões territoriais podem resultar em conflitos e desigualdades mais profundas. A política, da mesma forma, seria fragilizada com a necessidade de estabelecer novos governos, fórmulas de governança e relações internacionais, tornando ambos os novos países vulneráveis a crises econômicas.

● Preconceitos estruturais e identitários

Mais alarmante ainda é o preconceito subjacente que permeia a defesa dessa tese. Ao idealizarem um “Brasil do Sul” próspero e branco, personagens como o governador de Santa Catarina parecem ignorar ou desprezar a rica diversidade cultural e étnica que caracteriza o restante do país. Essa visão distorcida estabelece um dualismo perigoso, perpetuando a ideia de que o sucesso econômico está intrinsicamente ligado à cor da pele e à origem social.

Esses preconceitos refletem uma mentalidade elitista, que não só desconsidera o potencial das populações miscigenadas do Norte e Nordeste, mas também desumaniza e marginaliza suas realidades e contribuições. O retrato simplista de um “sul próspero e desenvolvido” contra um “norte pobre e atrasado," ignora as ricas tradições culturais, a criatividade e a resiliência das populações diversas que compõem o Brasil.

● Uma utopia reacionária

A ideia de separação entre o “Brasil do Sul” e o “Brasil do Norte” não representa uma solução viável para as desigualdades que existem em nosso país. Em vez de criar um país rico no sul e um pobre no norte, a separação resultaria em dois países que enfrentariam grandes entraves econômicos, sociais e políticos, com potencial de gerar pobreza e conflitos em ambos os lados. Além disso, ao exacerbar preconceitos e visões distorcidas sobre raça e classe, essa proposta só exacerbaria as divisões sociais.

A solução para o Brasil é promover políticas que integrem o país de forma justa, combatendo a desigualdade e investindo em melhorias que beneficiem toda a nação. A resposta para um Brasil melhor não está na divisão, mas na união e na valorização da diversidade que nos torna únicos. Se unirmos forças, podemos construir um futuro onde todas as vozes sejam ouvidas e todas as realidades respeitadas, favorecendo o crescimento e o bem-estar de todos os brasileiros.

*Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político



 

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