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TRUMP MOSTRA INTERESSE EM DIALOGAR AO EVITAR CITAR LULA, DIZ ANALISTA - A
conferência anual do Americas Society/Council of the Americas estava marcada há
alguns meses para, a exemplo de outros anos, discutir a importância do comércio
bilateral de Brasil e Estados Unidos. Neste ano, com as relações abaladas pela
sobretaxa de 50% do segundo sobre o primeiro, o encontro ganhou outro peso.
“É um momento delicado na relação bilateral, está difícil
mesmo. Mas acho que tem um forte interesse em explorar como seria um plano de
saída, uma estratégia para tentar, se não resolver, talvez melhorar as
condições de negócios entre os dois países”, diz Brian Winter, vice-presidente
executivo da entidade que representa empresas com atuação em toda a América
Latina.
Na avaliação dele, apesar do tensionamento causado pela
imposição do tarifaço, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, dá sinais
de estar aberto ao diálogo com o Brasil. Um desses indicativos vem do fato de o
americano não citar nominalmente o brasileiro ao ser referir ao país.
“Em todas as postagens do presidente Trump, ao longo dos
últimos meses, ele praticamente não mencionou o presidente Lula. O foco dele
tem sido o ministro Alexandre de Moraes. Eu acho que isso é intencional e
mostra o interesse em dialogar, em poupar talvez esse canal para eventualmente
dialogar”, afirma.
“Acho que essa omissão [em citar] o presidente Lula, de
poupar ele da retórica, indica a possibilidade de algum tipo de diálogo.”
A leitura sobre as intenções de Trump deve ser vistas com
ressalva, diz Winter. “Todos nós viramos psicanalistas de Donald Trump ao longo
dos últimos dez anos tentando interpretar as mensagens do presidente”, avalia.
“Eu posso afirmar que tem interesse, em Washington, de dialogar com o governo
brasileiro. Pode não ser hoje, mas eles querem ver algum tipo de diálogo.”
Winter vê como possível um caminho de diálogo que tenha
outros pontos de partida, trazendo à conversa temas que também são de interesse
dos Estados Unidos, como o tratamento dispensado às big techs, a exploração de
minerais críticos e terras raras e uma ajuda do Brasil no enfrentamento do que
ele considera ser um desafio imigratório envolvendo cidadãos venezuelanos e
haitianos.
Esse diálogo esteve muito perto de começar, mas foi
prejudicado pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e deve
ser novamente contaminado caso ele seja preso, algo que pode acontecer já no
mês de setembro.
Se isso se confirmar, avalia Winter, outras medidas
sancionadoras podem afetar o Brasil. Trump citou a situação judicial de
Bolsonaro e citou mais de uma vez em entrevistas e publicações em redes sociais
o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O deputado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, está nos Estados Unidos e tem
trabalhado por sanções ao país como forma de pressionar o judiciário brasileiro
por uma anistia no processo que julga a participação de Bolsonaro nos atos
golpistas de 8 de janeiro.
Essa atenção dedicada, por Trump, ao ministro Moraes
diferencia o Brasil e outros parceiros comerciais cujas relações com os Estados
Unidos estão abaladas por tarifas protecionistas. Ainda assim, o
vice-presidente do Council of the Americas, o caso do México merece observação.
“Nós achávamos, em algum momento, também que a relação
entre a Claudia Sheinbaum, a presidente do México, e Donald Trump seria quase
impossível”, diz.
Os problemas nas relações entre ambos eram muitos. As
questões imigratórias, o déficit comercial. Trump chegou a ameaçar o país
vizinho de uma ação militar para enfrentar cartéis de drogas. “Ela fez um
equilíbrio difícil entre uma clara mensagem sobre a soberania nacional
mexicana, mas também de entender os interesses dos Estados Unidos e tentar atender
onde foi possível.”
Volodimir Zelenski, presidente da Ucrânia, é outro
lembrado por ele, depois da desastrosa reunião na Casa Branca em fevereiro.
“Parecia que a relação tinha acabado. Mas não acabou.”
“Ela [Claudia Sheinbaum] conseguiu e acho que outros
líderes do mundo também conseguiram. E é um caminho. Pelo amor de Deus, não é
fácil, mas também não é impossível.”
Winter será, nesta terça (26), o anfitrião da conferência
do Council of The Americas em São Paulo, realizado com a Fiesp (Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo) e da qual participarão representantes de
grandes empresas brasileiras e americanas com negócios lá e cá.
“Em tempos difíceis, o setor privado sempre precisa fazer
o papel para dar ênfase na importância da relação bilateral”, diz o jornalista
e analista político. Ele lembra que pelo menos 7.000 empresas brasileiras
exportam para os Estados Unidos. As multinacionais e empresas americanas têm
US$ 90 milhões em estoque de investimentos diretos. “É muito dinheiro,
inclusive para a economia americana.”
Na avaliação dele, é importante também que fique clara a
importância do Brasil para o Sul Global, não apenas no sentido comercial. “Acho
que o governo [americano], a Casa Branca, reconhece essa importância e por isso
a preocupação sobre temas como as big techs, por exemplo. Não é só o mercado
brasileiro que tem peso aí. Eles sabem que o Brasil tem essa capacidade de ser
um trendsetter em várias coisas.”
Nas discussões na Fiesp nesta terça estão previstas as
participações do ministro Mauro Viera, das Relações Exteriores, e de Tatiana
Prazeres, secretária de Comércio Exterior do MDIC (Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). O ministro Fernando Haddad,
da Fazenda, deve participar por videoconferência.
Da iniciativa privada, participarão de uma mesa sobre
investimentos e integração Landon Loomis, presidente da Boeing para América
Latina e Caribe, Jennifer Prescott, diretora de Políticas Públicas da AWS
(Amazon Web Services), Alejandro Anderlic, direitor de Relações Governamentais
e Exteriores para América Latina na Salesforce, Juliana Villano, diretora de
Relações Institucionais da Embraer e Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS.
Brian Winter discutirá as perspectivas dos Estados Unidos
sobre a Relação Bilateral com o diplomata Tom A. Shannon Jr, ex-embaixador dos
EUA no Brasil e ex-subsecretário de Estado para Assuntos Políticos. (Fonte: Fernanda
Brigatti/Folhapress)

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