O levantamento foi feito por Danielle Crema,
ex-superintendente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), em sua
dissertação de mestrado para o IDP (Instituto Brasileiro de Ensino,
Desenvolvimento e Pesquisa).
A revisão extraordinária pode ser solicitada pela
concessionária se houver algum evento que se caracterize como risco alocado ao
poder concedente —ou seja, ao governo. O objetivo desse instrumento é realizar
a recomposição do equilíbrio econômico-financeiro contratual.
Procurada pela Folha, a Anac disse não ter manifestação a
fazer sobre o tema.
Como mostra o levantamento, houve um aumento
significativo nas solicitações de revisão extraordinária em 2017, logo após o
país mergulhar em uma crise econômica durante o governo da ex-presidente Dilma
Rousseff (PT).
À época, foram apresentados 30 pleitos, que totalizavam
mais de R$ 15 bilhões. A Anac recusou 25 das solicitações e acatou somente
cinco delas.
Segundo o levantamento, do total das solicitações daquele
ano, 15 pedidos foram feitos pela concessionária do aeroporto de Guarulhos, a
GRU Airport, equivalentes a R$ 320 milhões.
No entanto, os maiores pleitos, em quantia de reais,
apresentados em 2017 vieram do consórcio que administra o aeroporto de
Viracopos, em Campinas (SP), e totalizaram R$ 14,4 bilhões. Um único pedido
equivalia a R$ 13 bilhões desse montante e solicitava reequilíbrio em razão da
crise financeira vivenciada pelo país, que teria afetado diretamente a demanda
do aeroporto –a Anac recusou o pleito.
Outras solicitações naquele ano vieram dos aeroportos de
São Gonçalo do Amarante (RN), Brasília, Confins (MG) e Galeão (RJ). Todos esses
terminais foram concedidos entre 2011 e 2014, nas três primeiras rodadas de
concessões aeroportuárias promovidas pelo governo federal.
“Os estudos que as concessionárias fizeram para
participar dos leilões, lá atrás, em 2012, 2014, olharam como referência uma
estimativa de demanda, inclusive do estudo do governo, para estabelecer o preço
mínimo do leilão. Tempo depois, várias concessionárias pediram reequilíbrio
porque a demanda foi inferior ao que o governo tinha estimado”, explica Rafael
Scherre, ex-gerente de Regulação Econômica da Anac.
Apesar disso, Scherre afirma que os contratos deixam
claro que o risco de demanda é alocado à concessionária. Segundo ele, o que vale
é o levantamento que cada proponente interessada no ativo faz para definir a
sua própria precificação.
“Esse tanto de pedido aqui, 126 pedidos, com R$ 47
bilhões, não acontece em lugar nenhum do mundo. É um número absurdo. Se
reequilibrasse tudo o que foi pedido, esse modelo seria de PPP [parceria
público-privada], não de concessão”, afirma.
Mais recentemente, uma série de concessionárias
apresentaram pleitos de reequilíbrio econômico-financeiro durante a pandemia.
Desta vez, a Anac reconheceu a situação como caso de força maior.
De 2020 a agosto de 2024, o número de pedidos indeferidos
—ou seja, que não foram aceitos pela Anac— se manteve em um patamar baixo.
Durante esses cinco anos, foram 11 pleitos rejeitados, contra 54 acatados pela
agência.
Para Danielle Crema, autora do estudo, há um
desalinhamento entre as visões das concessionárias e da Anac. Segundo ela, é
importante buscar os fatores que o setor privado enxerga como risco que não é
de responsabilidade das empresas.
“A provocação que eu faço é de que, talvez, o Brasil
ainda não tenha um cenário de maturidade e estabilidade econômica que permita
alocar tantos riscos ao privado por tanto tempo. A gente está falando de um
país que a cada cinco anos tem algum tipo de crise econômica ou passa por alguma
situação adversa”, diz Crema.
Na opinião de Mauricio Portugal Ribeiro, sócio do
Portugal Ribeiro & Jordão Advogados e colunista da Folha, a alocação de
risco dos contratos das primeiras rodadas, elaborados durante o governo Dilma,
foi malfeita, diz. As três primeiras rodadas incluíram concessões de terminais
como Guarulhos (SP), Galeão (RJ), Brasília, Confins (MG) e Viracopos (SP).
“A função da distribuição de risco é fazer com que a
parte a quem você atribui o risco tenha um incentivo para cuidar daquele risco,
para evitar que ocorram eventos gravosos. São contratos muito mal-estruturados.
Veja o que está acontecendo com eles. Eles estão sendo renegociados”, afirma
Portugal.
No caso do Galeão, autoridades assinaram no fim de
setembro um termo de ajuste do contrato de concessão do aeroporto. Aprovado
pelo TCU (Tribunal de Contas da União), o acordo abre caminho para um processo
competitivo simplificado, que terá lance mínimo de R$ 932 milhões. Na prática,
trata-se de um novo leilão, aberto ao mercado. A previsão é de o certame
ocorrer até março de 2026.
(Fonte: Paulo Ricardo Martins/Folhapress)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Fique a vontade para comentar o que quiser, apenas com coerência e sem ataques pessoais.