Desde 2015 deputados e senadores separaram pouco mais de
R$ 520 milhões no Orçamento federal para a pasta de meio ambiente, enquanto da
Noruega vieram recursos no valor de R$ 1,75 bilhão para o Fundo Amazônia,
programa que tem como finalidade captar verbas para ações de prevenção,
monitoramento, combate ao desmatamento e uso sustentável principalmente na
floresta amazônica.
Nesse período, o montante recebido pelo fundo foi de mais
de R$ 2 bilhões, ou seja, os aportes do país nórdico foram responsáveis por
87,5% do total nos últimos dez anos.
O comparativo da Folha toma como marco inicial 2015, pois
foi naquele ano que uma alteração na Constituição Federal obrigou o Executivo
brasileiro a pagar as emendas individuais pedidas pelos congressistas e
inaugurou um período de controle cada vez maior do Legislativo sobre o
Orçamento, mudando a forma de fazer política no país.
Considerando todo o tempo de existência do Fundo
Amazônia, em vigor desde 2009, a arrecadação foi de R$ 4,5 bilhões, dos quais
R$ 1,8 bilhão já foram desembolsados para apoiar 119 projetos de
sustentabilidade nos estados da Amazônia Legal, composta por Acre, Amapá, Amazonas,
Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão.
A Noruega responde por 76,5% dessas doações, seguido por
Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido. A Petrobras é a única fonte nacional de
recursos para o fundo, tendo contribuído com R$ 17 milhões, ou 0,4% do total.
O país escandinavo é o principal financiador estrangeiro
das ações de proteção da natureza no Brasil porque, segundo a embaixada
norueguesa, o país tem o compromisso de destinar 1% de seu PIB (Produto Interno
Bruto) para a agenda de desenvolvimento internacional.
Os aportes ao Fundo Amazônia estão ligados à Iniciativa
Internacional de Clima e Floresta da Noruega (NICFI), lançada em 2007 como o
principal instrumento da política climática do país europeu.
Na região amazônica, Belém será capital federal de 10 a
21 de novembro devido à COP30, conferência da ONU que coloca o Brasil na
vitrine mundial e mobiliza a classe política com discursos em defesa da
natureza.
Tomando por base apenas as emendas parlamentares
reservadas ao ministério brasileiro da área de meio ambiente, para emprego
específico nos estados da Amazônia Legal, aumenta a disparidade na comparação
com as doações estrangeiras desde 2015.
A soma das emendas para emprego nessa região foi de R$
11,6 milhões —equivalente a 2,2% da verba recebida pela pasta ambiental, que no
atual governo Lula (PT) é chamada de Ministério do Meio Ambiente e Mudança do
Clima (MMA).
No mesmo período, deputados e senadores destinaram verbas
públicas que levaram 1.648 máquinas pesadas aos estados da Amazônia, com um
total de recursos pelo menos três vezes superior ao de ações de proteção do
ambiente na região da floresta amazônica.
Agentes de fiscalização, autoridades, ambientalistas e
lideranças indígenas ouvidos pela Folha associam a farta distribuição dos
equipamentos ao desmate e à abertura de estradas ilegais por prefeituras e
outros órgãos públicos, aliando discursos desenvolvimentistas a violações da
lei.
Para Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc
(Instituto de Estudos Socioeconômicos), entidade que analisa o Orçamento
federal há mais de duas décadas, é preciso considerar que sempre foi baixa a
destinação de verbas pelo Estado brasileiro para a área do meio ambiente.
“O orçamento do Meio Ambiente nos últimos dez anos não
passa dos R$ 3 bilhões a R$ 5 bilhões. É um orçamento muito pequeno para uma
política nacional que tem desafios gigantescos. Estamos falando não só do
Ministério do Meio Ambiente e da administração direta, mas do Ibama [
(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ], do
ICMBio [ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], do Serviço
Florestal e inclusive do Jardim Botânico [do Rio de Janeiro]”, afirma.
De acordo com Adriana Ramos, secretária-executiva do
Instituto Socioambiental, “historicamente, toda a política ambiental brasileira
dependeu majoritariamente de recursos internacionais, desde a criação da
primeira Secretaria de Meio Ambiente, que antecedeu o ministério, lá na década
de 1970”.
Segundo Ramos, os valores do exterior não foram
investidos apenas nas ações de nível federal, mas financiaram também, por
exemplo, a estruturação de secretarias estaduais de meio ambiente
A secretária-executiva do MMA, Anna Flávia Franco, diz
que o ministério trabalha para que o Congresso aumente a destinação de emendas
parlamentares para a pasta da área ambiental, mas a responsabilidade pelo
financiamento da proteção dos biomas em território brasileiro deve continuar
sendo compartilhada com outros países.
“Gostaríamos que os congressistas tivessem maior
sensibilidade para alocar um volume maior de recursos para o Ministério do Meio
Ambiente. Sem substituir o que as cooperações internacionais trazem, o
Congresso realmente deveria contribuir, porque fundamentalmente temos o bioma
Amazônia no nosso território”, afirma Franco.
Para incentivar o encaminhamento de emendas
parlamentares, o MMA acabou de lançar uma cartilha endereçada aos congressistas
que indica 42 projetos aptos a receber valores dos deputados e senadores.
O Congresso Nacional possui uma frente ambientalista que
formalmente é integrada por 187 parlamentares.
Porém, segundo o coordenador da frente, o deputado
federal Nilto Tatto (PT- SP), apenas cerca de 30 congressistas atuam
diretamente na pauta ambiental.
“São parlamentares de diversos partidos políticos, na sua
grande maioria de partidos no campo progressista. Tem também uma aliança muito
forte com parlamentares da bancada animalista, então trabalhamos de forma
conjunta. Por isso que você tem nesse rol de deputados partidos mais
conservadores, que têm hegemonia da bancada ruralista, por exemplo”, diz.
“Mas na hora das votações mais importantes, do ponto de
vista da pauta ambiental, a gente tem 120, 130 deputados, podemos contar isso”,
acrescenta Tatto.
A avaliação do deputado encontra amparo, por exemplo, na
votação de julho do projeto de lei que flexibiliza a legislação ambiental, o
chamado PL do Licenciamento, na qual 116 congressistas decidiram contra a
aprovação da matéria legislativa considerada prejudicial à proteção da natureza
pela frente ambientalista.
Procurada pela Folha, a assessoria do presidente do
Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), enviou nota na qual afirma que “a
destinação de recursos estrangeiros para fundos ambientais não representa
dependência, mas sim cooperação solidária, em conformidade com a
responsabilidade dos países desenvolvidos de apoiar nações em desenvolvimento
na preservação da biodiversidade, no combate ao desmatamento, na expansão das
energias renováveis e na gestão responsável dos recursos naturais”.
Segundo a nota, “a presidência do Senado Federal e do
Congresso Nacional não emite juízo de valor sobre as escolhas alocativas de
parlamentares”.
A reportagem também buscou a presidência da Câmara dos
Deputados por meio de sua assessoria de imprensa, que afirmou que o tema
deveria ser tratado por líderes de comissões orçamentárias da Casa. As
lideranças foram procuradas, mas não se manifestaram.
(Fonte: Flávio Ferreira e Jullia Gouveia, Folhaapress)

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