● COMO CRIAR FASCISTAS EM CASA “Cría cuervos y te sacarán
los ojos” (Provérbio espanhol).
Em janeiro de 2026, na Praia Brava, em Florianópolis,
Santa Catarina, um grupo de adolescentes de classe média e alta cometeu um ato
de barbárie que choca pela crueldade e pela impunidade que se segue.
O cão comunitário Orelha, um vira-lata idoso, de 10 anos,
amado e cuidado pela comunidade local, foi torturado e assassinado pelos
jovens. Relatos confirmam que os agressores enfiaram um prego na cabeça do
animal, espancaram-no com paus até a morte e atacaram outros dois cães: um foi
enforcado, e outro, um caramelo, foi jogado no meio do mar para morrer –
felizmente, este sobreviveu.
Os nomes dos envolvidos vazaram nas redes: Matheus Silva
Ferreira, Igor Zamperi e Evandro Daux Boabardi, filhos de empresários de redes
de hotéis e até de um policial. Esses delinquentes juvenis estudam em colégios
caros e representam a “elite catarinense”.
O que torna esse caso um manual prático de “como fabricar
monstros” é a reação dos pais. Em vez de exigir responsabilidade, de colocar os
filhos à disposição das autoridades, eles acobertam o delito com todas as armas
e artifícios que só a elite possui. O porteiro que filmou o brutal ataque foi
demitido e forçado a apagar as imagens, sob ameaças.
Administradores de páginas de protesto relatam coações de
advogados e dos próprios pais. Um dos adolescentes envolvidos no linchamento
foi até mesmo premiado: ganhou viagem para a Disney, enquanto o pai, um mau
policial, ameaça moradores e ativistas nas redes. Essa blindagem familiar
garante que os culpados escapem sem consequências, convertendo um crime
hediondo em uma “brincadeira de criança”. Não é. Estudos provam que indivíduos
que abusam de animais frequentemente cometem crimes contra pessoas.
Pais permissivos como esses são a raiz da criação de
adultos abusivos. Ao blindar filhos das consequências de seus atos, ensinam que
empatia é fraqueza e que poder justifica violência. Orelha não foi vítima
aleatória: seu martírio reflete uma mentalidade e uma sociedade que veem o
fraco como descartável. Estudos psicológicos mostram que crueldade contra
animais na adolescência é precursor de violência humana – serial killers, como
Jeffrey Dahmer, começaram assim. Em famílias privilegiadas, essa permissividade
vira combustível para comportamentos reacionários: intolerância à diferenças,
defesa de hierarquias rígidas para os outros e rejeição de autoridade.
Isso escala para a política: adultos criados a partir
desse manual de conduta delituosa tornam-se tiranos em potencial. Fascismo –
ideologia autoritária, militarista, intolerante, antidemocrática e violenta –
prospera na impunidade, fomentando elites que protegem os seus enquanto oprimem
os vulneráveis. Por todo o país, vemos ecos do fascismo em políticos
reacionários que defendem a “ordem” da brutalidade, o livre mercado para os
ricos, o trabalho sem direitos para os mais pobres, enquanto perpetuam a
corrupção e parasitam o estado.
Em SC, o alto índice de prefeitos flagrados na prática da
corrupção, todos de direita, mostra a contradição entre o discurso do “estado
mínimo” e a máxima de abocanhar dinheiro público sem qualquer pudor. Foram
R$50,9 bilhões em recursos federais injetados ali no ano passado, que ao invés
de fortalecer o discurso do papel indutor do estado, reforça uma lógica
perversa: roubar o público é “normal” se você é da elite, porque sua origem de
classe garante a impunidade. Pais que premiam os filhos com férias na Disney
após o assassinato de um animal indefeso estão criando os próximos líderes que
roubam dinheiro público, que apoiam ditaduras, que defendem a tortura, que
negam direitos, que não toleram diferenças, que matam mulheres, que discriminam
pretos, que agridem gays e reagem com fúria a qualquer ameaça ao status quo.
A manifestação convocada para 24 de janeiro, na Praia
Brava em Santa Catarina, é um grito contra isso. Com hashtags como
#JusticaPorOrelha e #DigaNaoAosMausTratos, milhares exigem providências. Mas
sem punição real, esses jovens virarão adultos abusivos, que elegem fascistas
ou se tornam um deles. Para quebrar o ciclo, pais devem ensinar
responsabilidade, não garantir impunidade a qualquer custo. A permissividade em
casa cria monstros na sociedade.
Justiça por Orelha não é só por um cão morto em uma praia
distante de nós – é pela humanidade que perdemos, paulatinamente, sempre que
permitimos a banalização do mal.
*Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor
político.

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