terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Justiça por Orelha não é só por um cão morto em uma praia distante de nós – é pela humanidade que perdemos, paulatinamente, sempre que permitimos a banalização do mal.

● COMO CRIAR FASCISTAS EM CASA “Cría cuervos y te sacarán los ojos” (Provérbio espanhol).

Em janeiro de 2026, na Praia Brava, em Florianópolis, Santa Catarina, um grupo de adolescentes de classe média e alta cometeu um ato de barbárie que choca pela crueldade e pela impunidade que se segue.

O cão comunitário Orelha, um vira-lata idoso, de 10 anos, amado e cuidado pela comunidade local, foi torturado e assassinado pelos jovens. Relatos confirmam que os agressores enfiaram um prego na cabeça do animal, espancaram-no com paus até a morte e atacaram outros dois cães: um foi enforcado, e outro, um caramelo, foi jogado no meio do mar para morrer – felizmente, este sobreviveu.

Os nomes dos envolvidos vazaram nas redes: Matheus Silva Ferreira, Igor Zamperi e Evandro Daux Boabardi, filhos de empresários de redes de hotéis e até de um policial. Esses delinquentes juvenis estudam em colégios caros e representam a “elite catarinense”.

O que torna esse caso um manual prático de “como fabricar monstros” é a reação dos pais. Em vez de exigir responsabilidade, de colocar os filhos à disposição das autoridades, eles acobertam o delito com todas as armas e artifícios que só a elite possui. O porteiro que filmou o brutal ataque foi demitido e forçado a apagar as imagens, sob ameaças.

Administradores de páginas de protesto relatam coações de advogados e dos próprios pais. Um dos adolescentes envolvidos no linchamento foi até mesmo premiado: ganhou viagem para a Disney, enquanto o pai, um mau policial, ameaça moradores e ativistas nas redes. Essa blindagem familiar garante que os culpados escapem sem consequências, convertendo um crime hediondo em uma “brincadeira de criança”. Não é. Estudos provam que indivíduos que abusam de animais frequentemente cometem crimes contra pessoas.

Pais permissivos como esses são a raiz da criação de adultos abusivos. Ao blindar filhos das consequências de seus atos, ensinam que empatia é fraqueza e que poder justifica violência. Orelha não foi vítima aleatória: seu martírio reflete uma mentalidade e uma sociedade que veem o fraco como descartável. Estudos psicológicos mostram que crueldade contra animais na adolescência é precursor de violência humana – serial killers, como Jeffrey Dahmer, começaram assim. Em famílias privilegiadas, essa permissividade vira combustível para comportamentos reacionários: intolerância à diferenças, defesa de hierarquias rígidas para os outros e rejeição de autoridade.

Isso escala para a política: adultos criados a partir desse manual de conduta delituosa tornam-se tiranos em potencial. Fascismo – ideologia autoritária, militarista, intolerante, antidemocrática e violenta – prospera na impunidade, fomentando elites que protegem os seus enquanto oprimem os vulneráveis. Por todo o país, vemos ecos do fascismo em políticos reacionários que defendem a “ordem” da brutalidade, o livre mercado para os ricos, o trabalho sem direitos para os mais pobres, enquanto perpetuam a corrupção e parasitam o estado.

Em SC, o alto índice de prefeitos flagrados na prática da corrupção, todos de direita, mostra a contradição entre o discurso do “estado mínimo” e a máxima de abocanhar dinheiro público sem qualquer pudor. Foram R$50,9 bilhões em recursos federais injetados ali no ano passado, que ao invés de fortalecer o discurso do papel indutor do estado, reforça uma lógica perversa: roubar o público é “normal” se você é da elite, porque sua origem de classe garante a impunidade. Pais que premiam os filhos com férias na Disney após o assassinato de um animal indefeso estão criando os próximos líderes que roubam dinheiro público, que apoiam ditaduras, que defendem a tortura, que negam direitos, que não toleram diferenças, que matam mulheres, que discriminam pretos, que agridem gays e reagem com fúria a qualquer ameaça ao status quo.

A manifestação convocada para 24 de janeiro, na Praia Brava em Santa Catarina, é um grito contra isso. Com hashtags como #JusticaPorOrelha e #DigaNaoAosMausTratos, milhares exigem providências. Mas sem punição real, esses jovens virarão adultos abusivos, que elegem fascistas ou se tornam um deles. Para quebrar o ciclo, pais devem ensinar responsabilidade, não garantir impunidade a qualquer custo. A permissividade em casa cria monstros na sociedade.

Justiça por Orelha não é só por um cão morto em uma praia distante de nós – é pela humanidade que perdemos, paulatinamente, sempre que permitimos a banalização do mal.

*Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político.


 

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