quinta-feira, 16 de abril de 2026
● A guerra híbrida transformou a política em mera ferramenta de poder assimétrico, onde quem não tem escrúpulos vence qualquer debate racional...
● COMO A ESQUERDA PODE VENCER ESSA GUERRA – Desde 2016, a extrema direita brasileira está na dianteira. Ela opera com uma máquina de guerra híbrida em escala industrial: desinformação em massa, lawfare, operações psicológicas, manipulação de algoritmos e ataques coordenados em rede. Foi assim no golpe contra Dilma Rousseff, na prisão arbitrária de Lula e nos ataques constantes ao atual governo.
Levantamento da consultoria Bites revelou que, nos primeiros cinco meses de 2025, políticos de direita registraram 1,48 bilhão de interações (curtidas, comentários e compartilhamentos), enquanto a esquerda somou 417 milhões. Isso significa que a direita gera cerca de 2,5 vezes mais engajamento que a esquerda e o centro somados.
Esse desequilíbrio brutal não é acidental. A desigualdade de meios nas redes não decorre apenas de falhas táticas da esquerda — há financiamento massivo e deliberado nessa operação, vindo de setores poderosos. Plataformas de apostas (bets) que exploram a pobreza, o agronegócio com suas bancadas bilionárias, igrejas neopentecostais e seus dízimos não tributáveis e até elementos ligados ao crime organizado bancam influencers, perfis de ataque e impulsionamento maciçamente conteúdo mentiroso.
Personalidades como Nikolas Ferreira funcionam como “apito de cachorro”: emitem mensagens codificadas, como a falsa tributação do pix, que mobilizam o núcleo radical sem soar explícitas para o resto da sociedade. Flávio Bolsonaro, por sua vez, usa a mentira deliberada. Recentemente, postou um vídeo mostrando filas de famintos em busca de ossos, de 2021 — ano em que seu próprio pai presidia o país e a fome explodiu por negligência sanitária e econômica — para atacar Lula. É o uso sistemático da mentira como arma, onde a repetição brutal de falsidades compensa a ausência total de propostas de governo e projeto de país.
Para superar os obstáculos e vencer, a esquerda precisa abandonar três ilusões. Primeiro, a de que a verdade fala por si mesma. Não fala. Segundo, a de que bons governos se comunicam sozinhos. Não se comunicam. Terceiro, a de que o adversário joga limpo. Não joga. É preciso, então, agir em cinco frentes. Investir maciçamente em comunicação profissional, simples e emocional, em todas as plataformas — do TikTok ao WhatsApp, passando por podcasts e canais de games. Formar quadros jovens em contranarrativa e fact-checking coordenado, não reativo, mas antecipatório.
Unir-se em um projeto nacional que dialogue com o senso comum: segurança pública, emprego, ordem, justiça social e orgulho nacional. Sem medo ou vergonha de usar essas palavras. Pressionar a regulação do financiamento opaco de campanhas e a transparência dos algoritmos — sem ingenuidade, sabendo que isso levará tempo.
O exemplo da esquerda alemã, especificamente o partido Die Linke, mostra que é possível enfrentar a extrema direita com inteligência e eficácia. Diferente da abordagem tradicional, muitas vezes acadêmica e institucional, Die Linke investiu pesado em comunicação profissional e emocional nas redes sociais, produzindo vídeos curtos, memes e formatos acessíveis no TikTok, Instagram e YouTube, com humor, clareza política e forte apelo emocional.
Um marco dessa virada foi o discurso da líder Heidi Reichinnek no Parlamento, quando ela bateu na tribuna ao gritar “Às barricadas!” contra o flerte da direita com o fascismo — o vídeo ultrapassou 30 milhões de visualizações e reverteu a queda da legenda nas pesquisas. Além disso, Die Linke não se limitou a reagir às mentiras da AfD com fact-checking passivo. Adotou uma contranarrativa coordenada e antecipatória, construindo discursos positivos que ligavam antifascismo a resultados concretos, como congelamento de aluguéis, aumento real do salário mínimo e combate à pobreza.
Outro pilar foi a combinação entre presença digital constante e trabalho de base presencial: enquanto mantinham equipes ativas nas plataformas, faziam conversas porta a porta em milhares de lares, ouvindo queixas e apresentando soluções, criando equipes de acolhimento em bairros e cidades pequenas para manter contato contínuo, não apenas em época eleitoral. A cada conquista parlamentar, eles produziam conteúdo imediato mostrando “isso é fruto do nosso trabalho”, sem delegar a comunicação à mídia tradicional. Por fim, o antifascismo nunca foi tratado como pauta separada das questões sociais.
Cada política de moradia, trabalho e saúde era apresentada como a verdadeira barreira contra o avanço fascista, e o partido defendeu publicamente o banimento da AfD como organização antidemocrática. Para o Brasil, a lição é clara: vencer a guerra híbrida não é apenas mostrar a verdade, mas ocupar o mesmo espaço emocional e narrativo da direita com profissionalismo, frequência e clareza, abandonando o elitismo e abraçando a disputa simbólica com a mesma intensidade do adversário. (Chico Cavalcante é jornalista, escritor e consultor político)
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