O Mito dos Dados e a Realidade dos Fatos
Os heróis do credo liberal oferecem a evidência mais contundente de sua própria falência. A Newsweek documentou que, sob Ronald Reagan, “os gastos do governo cresceram em termos reais em quase um quarto durante sua administração” e, “excluindo o pessoal de defesa, a força de trabalho do governo federal cresceu em 200 mil, para 3 milhões” . Nos Estados Unidos, os gastos públicos saltaram de menos de 36% do PIB sob Carter para quase 38% sob Reagan, enquanto a dívida disparou de menos de 40% para mais de 50% do PIB . Na Grã-Bretanha de Thatcher, a narrativa não foi diferente: os gastos públicos como proporção do PIB caíram de 43% para apenas 41,9%, uma redução pífia. O sociólogo Anthony Giddens nota, com ironia, que “a resiliência dos orçamentos de bem-estar no Reino Unido é ainda mais notável, dada a determinação dos governos de Margaret Thatcher em cortá-los” . A própria Dama de Ferro sabia que o Serviço Nacional de Saúde era uma “religião secular” e prometeu mantê-lo intacto.
O que Reagan e Thatcher realmente executaram não foi um encolhimento, mas uma redistribuição regressiva: redução de impostos para os ricos, aumento de impostos sobre consumo (como a duplicação do VAT britânico), e uma reorientação dos gastos — para longe da educação e saúde, em direção à polícia e defesa . O “estado mínimo”, na prática, sempre foi um estado seletivo: forte e generoso com as elites e com o aparato repressivo, austero e predatório com os direitos sociais das maiorias.
A Armadilha da Retórica do Impossível
Se a realidade desmente a tese, por que ela perdura? Porque sua função é retórica, não pragmática. O filósofo Robert Nozick, em Anarchy, State, and Utopia (1974), forneceu a justificativa moral para o “estado mínimo”, argumentando que qualquer estado mais abrangente violaria direitos individuais . Milton Friedman, o guru econômico da escola de Chicago, foi ainda mais longe, listando 14 programas governamentais que deveriam ser abolidos, desde o serviço postal público até o Serviço Nacional de Parques. Friedman chegou a declarar que qualquer coisa que o governo faz custa, em média, “o dobro do que se fosse feito pela iniciativa privada”.
No entanto, essa construção teórica serve a um propósito prático muito claro. O estudioso Antoine Maillet argumenta que a definição de “estado mínimo” é uma simplificação arbitrária que obscurece a complexidade da ação estatal contemporânea. Ao reduzir o debate a um falso dilema (“estado vs. mercado”), a extrema direita consegue:
1. Canalizar descontentamentos reais (burocracia, corrupção, ineficiência) para uma agenda de desmonte institucional.
2. Apresentar o estado como o inimigo monolítico da liberdade, ignorando que o estado também é o garantidor dos contratos e da propriedade privada que o mercado tanto ama.
3. Beneficiar elites econômicas com redução de impostos e desregulação, financiando a própria narrativa de sua “libertação”.
A Distopia que Serve ao Poder
O “estado mínimo” é a distopia dos poderosos: uma ideia que nunca existiu, mas que justifica perfeitamente o desmonte daquilo que incomoda as elites. Ele permite cortar direitos, precarizar o trabalho e desmontar a segregação de riscos enquanto se mantém — e muitas vezes se amplia — o estado repressivo e o subsídio ao capital.
Onde o experimento foi levado mais a fundo, como no Chile pós-Pinochet, o resultado foi atrofia dos serviços públicos e o colapso da coesão social, manifestado nas massivas revoltas de 2019, quando a população exigiu exatamente o oposto: mais estado, mais direitos, mais dignidade.
O estado mínimo é o Ornitorrinco da política: uma quimera teórica que, na realidade, nunca aprendeu a nadar. No entanto, sua potência reside justamente nessa impossibilidade. Ao prometer o que não pode cumprir, mantém viva a esperança de uma “libertação” que sempre fica para amanhã — e, enquanto isso, o estado social é destruído hoje, preservando a fortuna dos ricos e jogando o peso da crise sobre os pobres. A extrema direita não quer o estado mínimo. Ela precisa da promessa do estado mínimo para justificar seu projeto real: um estado forte e protetor para as elites e minimalista para a maioria.
*Chico Cavalcante | é Jornalista e consultor político

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