● A REBELIÃO DO HABITUS: COMO A EXTREMA DIREITA CONVERTEU
RESSENTIMENTO EM CAPITAL SIMBÓLICO - A política na arena digital se consolidou,
em última instância, como uma disputa por quem terá o direito e o poder de
nomear o que é real.
O fenômeno da ascensão da extrema-direita nas plataformas
digitais é frequentemente reduzido a explicações puramente tecnológicas, como o
funcionamento de algoritmos, ou psicológicas, como o contágio emocional. No
entanto, para compreender a profundidade desse domínio, é preciso recorrer à
sociologia de Pierre Bourdieu. A extrema-direita não apenas “usa” as redes
sociais; ela colonizou o capital simbólico desses espaços, transformando o
ressentimento social em uma nova forma de distinção e autoridade.
● O capital simbólico da “autenticidade” contra a elite
cultural
O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) explicava
que o sistema de dominação tradicional se baseia no capital cultural — títulos
acadêmicos, domínio da norma culta e acesso a instituições de prestígio. A
extrema-direita percebeu que, nas redes sociais, esse capital cultural
tradicional pode ser convertido em um estigma: o “globalismo” ou a “elite
intelectual descolada da realidade”.
Nesse campo, as lideranças de extrema-direita operam uma
inversão de valores. Eles acumulam um capital simbólico de autenticidade ao
rejeitarem deliberadamente a correção política e o vocabulário das
instituições. Ao falarem de forma “tosca”, agressiva ou simplista, eles
sinalizam um pertencimento ao “povo” e uma ruptura com as hierarquias
tradicionais. Para o eleitor que se sente excluído ou menosprezado pelo sistema
educacional e cultural, essa quebra de protocolo é percebida como um ato de
libertação contra a violência simbólica “das elites”.
● O habitus do
ressentimento e a identidade de grupo
O conceito de habitus é fundamental para entender por que
certas narrativas de extrema-direita se propagam tão organicamente. O habitus é
o sistema de disposições que adquirimos através da nossa posição social. Nas
últimas décadas, grandes parcelas da classe média e trabalhadora viram seu
prestígio social e segurança econômica declinarem.
A extrema-direita oferece a esses grupos uma forma de
revalorização simbólica. Através das redes, ela reativa disposições latentes —
como o nacionalismo, o conservadorismo moral, o medo da perda de status e a
nostalgia de um passado idílico — transformando o sentimento de derrota em uma
identidade de “guerreiro cultural”. As redes sociais, ao funcionarem como
câmaras de eco, cristalizam esse habitus, fazendo com que o indivíduo sinta que
suas percepções (muitas vezes baseadas no medo do outro, seja ele o imigrante,
o progressista ou a minoria) são, não apenas legítimas, mas, também a única
verdade ocultada por uma conspiração sistêmica.
● A luta pelo monopólio da verdade nas redes
Para Bourdieu, o Estado é o detentor do “monopólio da
violência simbólica legítima”. A extrema-direita digital desafia esse monopólio
ao criar um sistema paralelo de classificação da realidade. Nas redes, o
capital simbólico não é mais outorgado por especialistas ou jornalistas, mas
pelo volume de engajamento e pela capacidade de “mitar” ou “lacrar” sobre o
oponente.
A prevalência da extrema-direita nas redes sociais
deve-se à sua maestria em gerir esse novo mercado de bens simbólicos. Ao
utilizarem uma estética de “contra-informação”, eles oferecem ao seguidor o que
Bourdieu chamaria de lucro de distinção: o seguidor sente que “despertou”, que
possui um conhecimento que a massa ignora. Essa sensação de superioridade
intelectual, paradoxalmente construída sobre a rejeição do saber acadêmico, é
uma das formas mais poderosas de vinculação política na era digital.
● A gramática social do conflito
A hegemonia da extrema-direita nas redes sociais não é um acidente técnico, mas o resultado de uma estratégia minuciosa e de uma agressiva disputa por capital simbólico. Ela soube ler as fissuras no habitus de uma população insegura e oferecer-lhe uma nova gramática social. Enquanto as instituições tradicionais ainda tentam dialogar através da autoridade de seus títulos, a extrema-direita opera na base da identificação emocional e da deslegitimação das categorias de pensamento consagradas. A política na arena digital se consolidou, em última instância, como uma disputa por quem terá o direito e o poder de nomear o que é real.

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