segunda-feira, 25 de maio de 2026

● A hegemonia da extrema-direita nas redes sociais não é um acidente técnico, mas o resultado de uma estratégia minuciosa e de uma agressiva disputa por capital simbólico.

● A REBELIÃO DO HABITUS: COMO A EXTREMA DIREITA CONVERTEU RESSENTIMENTO EM CAPITAL SIMBÓLICO - A política na arena digital se consolidou, em última instância, como uma disputa por quem terá o direito e o poder de nomear o que é real.

O fenômeno da ascensão da extrema-direita nas plataformas digitais é frequentemente reduzido a explicações puramente tecnológicas, como o funcionamento de algoritmos, ou psicológicas, como o contágio emocional. No entanto, para compreender a profundidade desse domínio, é preciso recorrer à sociologia de Pierre Bourdieu. A extrema-direita não apenas “usa” as redes sociais; ela colonizou o capital simbólico desses espaços, transformando o ressentimento social em uma nova forma de distinção e autoridade.

● O capital simbólico da “autenticidade” contra a elite cultural

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) explicava que o sistema de dominação tradicional se baseia no capital cultural — títulos acadêmicos, domínio da norma culta e acesso a instituições de prestígio. A extrema-direita percebeu que, nas redes sociais, esse capital cultural tradicional pode ser convertido em um estigma: o “globalismo” ou a “elite intelectual descolada da realidade”.

Nesse campo, as lideranças de extrema-direita operam uma inversão de valores. Eles acumulam um capital simbólico de autenticidade ao rejeitarem deliberadamente a correção política e o vocabulário das instituições. Ao falarem de forma “tosca”, agressiva ou simplista, eles sinalizam um pertencimento ao “povo” e uma ruptura com as hierarquias tradicionais. Para o eleitor que se sente excluído ou menosprezado pelo sistema educacional e cultural, essa quebra de protocolo é percebida como um ato de libertação contra a violência simbólica “das elites”.

● O habitus do ressentimento e a identidade de grupo

O conceito de habitus é fundamental para entender por que certas narrativas de extrema-direita se propagam tão organicamente. O habitus é o sistema de disposições que adquirimos através da nossa posição social. Nas últimas décadas, grandes parcelas da classe média e trabalhadora viram seu prestígio social e segurança econômica declinarem.

A extrema-direita oferece a esses grupos uma forma de revalorização simbólica. Através das redes, ela reativa disposições latentes — como o nacionalismo, o conservadorismo moral, o medo da perda de status e a nostalgia de um passado idílico — transformando o sentimento de derrota em uma identidade de “guerreiro cultural”. As redes sociais, ao funcionarem como câmaras de eco, cristalizam esse habitus, fazendo com que o indivíduo sinta que suas percepções (muitas vezes baseadas no medo do outro, seja ele o imigrante, o progressista ou a minoria) são, não apenas legítimas, mas, também a única verdade ocultada por uma conspiração sistêmica.

● A luta pelo monopólio da verdade nas redes

Para Bourdieu, o Estado é o detentor do “monopólio da violência simbólica legítima”. A extrema-direita digital desafia esse monopólio ao criar um sistema paralelo de classificação da realidade. Nas redes, o capital simbólico não é mais outorgado por especialistas ou jornalistas, mas pelo volume de engajamento e pela capacidade de “mitar” ou “lacrar” sobre o oponente.

A prevalência da extrema-direita nas redes sociais deve-se à sua maestria em gerir esse novo mercado de bens simbólicos. Ao utilizarem uma estética de “contra-informação”, eles oferecem ao seguidor o que Bourdieu chamaria de lucro de distinção: o seguidor sente que “despertou”, que possui um conhecimento que a massa ignora. Essa sensação de superioridade intelectual, paradoxalmente construída sobre a rejeição do saber acadêmico, é uma das formas mais poderosas de vinculação política na era digital.

● A gramática social do conflito

A hegemonia da extrema-direita nas redes sociais não é um acidente técnico, mas o resultado de uma estratégia minuciosa e de uma agressiva disputa por capital simbólico. Ela soube ler as fissuras no habitus de uma população insegura e oferecer-lhe uma nova gramática social. Enquanto as instituições tradicionais ainda tentam dialogar através da autoridade de seus títulos, a extrema-direita opera na base da identificação emocional e da deslegitimação das categorias de pensamento consagradas. A política na arena digital se consolidou, em última instância, como uma disputa por quem terá o direito e o poder de nomear o que é real.

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