segunda-feira, 1 de junho de 2026

● A classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelo governo Trump, patrocinada pelos filhos de Bolsonaro, é um ato de lesa-pátria...


● BOLSONARISMO COMO TERRORISMO E A PERSISTÊNCIA DO INTENTO GOLPISTA - A condenação histórica de Jair Bolsonaro e seus generais por tentativa de golpe de Estado não enterrou o projeto golpista; ele apenas se reconfigura, aliando extremismo doméstico à subserviência internacional.

O Brasil assistiu, nos últimos anos, a um fenômeno inédito em sua história republicana: um presidente derrotado nas urnas articulou, às claras, um plano para permanecer no poder a qualquer custo. A investigação da Polícia Federal e a denúncia da Procuradoria-Geral da República revelaram uma organização criminosa estável, liderada por Jair Bolsonaro, que tramou a abolição violenta do Estado Democrático de Direito, o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, de seu vice Geraldo Alckmin e de um ministro do Supremo Tribunal Federal . O plano “Punhal Verde Amarelo” não foi ficção; foi uma conspiração em curso, interrompida apenas pela falta de adesão do Alto Comando das Forças Armadas .

No entanto, a condenação de Bolsonaro e de seus aliados militares — embora histórica — não representa o ponto final do bolsonarismo como projeto de poder. Pelo contrário. Como bem alertou a historiadora Carla Teixeira, em entrevista ao Brasil de Fato, “o que faltou para esse golpe dar certo foi combinar com o restante da burguesia” . Em outras palavras, a tentativa fracassou não por convicção democrática dos golpistas, mas por falta de articulação política e midiática suficiente. E é justamente essa articulação que agora se recompõe sob novas bases.

A sobrevivência política do bolsonarismo, demonstrada pela manutenção de uma base eleitoral significativa e pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, indica que o “trauma” nacional ainda não foi devidamente elaborado . Mais grave: o movimento extremista aprendeu com seus erros. Diante da blindagem institucional representada pelo STF e pelo sistema eleitoral — que o impediu de consumar o golpe em 2022 —, a estratégia agora é internacionalizar o conflito e sequestrar a soberania nacional em nome de uma suposta “guerra contra o terror”.

● Terceirizando a segurança pública e a política externa

O episódio recente em que os Estados Unidos, sob influência direta de Flávio e Eduardo Bolsonaro, classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas é a materialização mais explícita dessa nova fase do projeto golpista, que se deu ao mesmo tempo em que o envolvimento direto de Bolsonaro e seus filhos com a bilionária fraude do Banco Master se tornou evidente.

À primeira vista, a medida do governo dos Estados Unidos pode soar como um avanço no combate ao crime organizado. No entanto, como alertou o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a decisão impõe riscos gravíssimos à soberania nacional, ao sistema financeiro e às relações comerciais do Brasil. Bancos, corretoras e até mesmo o Pix podem sofrer retaliações; o país pode ver seu risco-país disparar, seus investimentos estrangeiros encolherem e seu comércio exterior ser inviabilizado .

A Colômbia conviveu com as consequências da classificação das Farc como terroristas por mais de duas décadas, sem que o crime organizado tenha sido erradicado. O México também sofre com as sanções americanas a bancos acusados de lavagem de dinheiro para cartéis. Em todos os casos, o que se viu foi uma perda de autonomia e uma interferência externa que mais atrapalhou do que ajudou no enfrentamento ao crime.

O promotor Lincoln Gakiya, maior autoridade do país no combate ao PCC, já declarou que a medida de Donald Trump mais atrapalha do que ajuda. Isso porque o compartilhamento de informações entre Polícia Federal, Ministério Público, DEA e FBI tende a cessar, uma vez que os assuntos de defesa serão classificados como sigilosos pela CIA e pelo Pentágono.

Mas o mais grave é o caráter político-eleitoral da ação. Ao viajar aos Estados Unidos para se encontrar com Marco Rubio e Donald Trump, Flávio Bolsonaro não estava defendendo a segurança pública brasileira — estava criando uma cortina de fumaça para desviar o foco das investigações sobre o Banco Master, que o ligam a lavagem de dinheiro. Ao mesmo tempo, construía um salvo-conduto para uma eventual intervenção ianque no Brasil, criando um fato externo que pudesse desestabilizar o governo Lula e beneficiar sua própria candidatura.

Como escreveu Leonardo Sakamoto, no UOL, “Trump, interfira no Brasil” virou o programa de governo dos Bolsonaros. O patriota de vitrine que se veste de verde e amarelo não hesita em bater continência à bandeira dos Estados Unidos e pedir sanções contra o próprio país para tirar vantagem eleitoral.

● A persistência do intento golpista e o papel das Forças Armadas

O julgamento do STF escancarou que a tentativa de golpe não foi obra de alguns poucos “radicais isolados”. Foi uma operação coordenada, que envolveu o presidente da República, seus ministros militares, generais da reserva e o núcleo duro do governo . A reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, as reuniões no Palácio do Planalto com comandantes das Forças Armadas, os atos antidemocráticos de 8 de janeiro — tudo isso compõe um quadro de insurreição em curso, como definiu o procurador-geral Paulo Gonet.

No entanto, é ingênuo supor que a condenação dos generais Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira extirpou o pensamento golpista das casernas. Pelo contrário. A historiadora Carla Teixeira, em sua análise para o Brasil de Fato, foi contundente: “Sem reforma, risco de golpe continua”. As Forças Armadas brasileiras ainda operam sob a lógica da Doutrina de Segurança Nacional, que identifica um “inimigo interno” a ser combatido — movimento sociais, lideranças populares, intelectuais e jornalistas críticos.

O fato de o ministro da Defesa, José Múcio, ter permanecido no cargo mesmo tendo defendido os acampamentos golpistas é um sintoma do imobilismo político que impede uma reforma estrutural nas Forças Armadas. Enquanto a Justiça Militar continuar a existir, enquanto os privilégios e as estruturas paralelas dos militares não forem enfrentados, o país seguirá refém de uma corporação que se vê como poder moderador e não como serviço público subordinado ao controle civil.

A democracia brasileira, como disse o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, “segue ameaçada”. A condenação de Bolsonaro é um passo importante, mas não é uma “bala de prata”. O bolsonarismo, enquanto movimento, sobrevive ao seu líder — e pode retornar ainda mais perigoso, sob novas lideranças e com novas estratégias.

● A vigilância como critério da liberdade

O Brasil vive um momento decisivo de sua história republicana. Pela primeira vez, um ex-presidente e seus generais foram condenados pela Justiça civil por tentativa de golpe de Estado. Isso não é pouca coisa. Representa um avanço institucional relevante e uma sinalização de que os atentados à democracia não ficarão impunes.

No entanto, como aponta o psicanalista Fábio C. Zuccolotto, o julgamento não é apenas jurídico — é também uma oportunidade de elaboração coletiva do trauma . A sociedade brasileira precisa nomear o que viveu, reconhecer a gravidade do que se passou e, a partir daí, construir barreiras efetivas contra o autoritarismo.

Isso implica, necessariamente, enfrentar o bolsonarismo em suas novas roupagens. Não mais como um movimento que tenta dar um golpe às claras, mas como uma força política que busca minar a democracia por dentro — seja via anistia aos golpistas, seja via internacionalização do conflito e subserviência aos Estados Unidos.

A classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelo governo Trump, patrocinada pelos filhos de Bolsonaro, é um ato de lesa-pátria. É a tentativa de sequestrar a soberania nacional em favor de um projeto de poder pessoal e familiar. E é também um alerta: o golpismo não morreu. Ele apenas mudou de endereço — migrou dos quartéis para os escritórios de lobbies em Washington, travestido de retórica anticrime, mas carregando o mesmo objetivo de sempre: desestabilizar o Brasil em proveito próprio.

Cabe à sociedade brasileira, às instituições democráticas e à comunidade internacional que valoriza o Estado de Direito dizer: não passará. E, mais do que isso, construir as reformas estruturais — nas Forças Armadas, no sistema de inteligência, na regulação das plataformas digitais e no financiamento político — que impeçam que a história se repita. O trauma, para ser superado, não pode ser esquecido. E os golpistas, para serem derrotados, não podem ser anistiados. (Chico Cavalcante é jornalista e consultor político) ▼ https://blogdonelsonvinencci.blogspot.com/

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