● DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS: COMO A IMPRENSA E A FARIA LIMA IGNORARAM A INFLAÇÃO DE BOLSONARO E AMPLIFICAM A DE LULA – O IPCA de maio veio acima do esperado. Subiu 0,58%, puxado pelos alimentos, e a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,72%. O número está acima do teto da meta do Banco Central, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto. A categoria alimentação no domicílio teve alta de 1,65% no mês – a maior para maio em 18 anos. É verdade que ainda há efeitos da guerra no Oriente Médio e do El Niño, e a tendência é de resistência inflacionária. Tanto que economistas já reduziram as expectativas para a queda dos juros.
Essa foi a reação da imprensa ao dado de junho. E não é de se estranhar: a inflação segue como um dos indicadores mais sensíveis da economia. Ela corrói o poder de compra, condiciona a política monetária e pauta o debate fiscal. Só que, mais do que os números, interessa observar como a imprensa e o chamado mercado financeiro interpretam e comunicam esses números. E aí a coisa muda de figura.
Durante o governo Bolsonaro, a inflação chegou a superar os expressivos 10%, com forte expansão da dívida pública e flexibilização do teto de gastos. Ainda assim, o discurso predominante da imprensa e do mercado financeiro foi de tolerância. Atribuiu-se a alta a choques externos – pandemia, cadeias produtivas desorganizadas, commodities em disparada. O Banco Central, quando citado, aparecia como uma espécie de fiador solitário do regime de metas. Mas risco sistêmico, descontrole fiscal ou hiperinflação nunca estiveram na pauta.
Já a partir de 2023, com o retorno de Lula, graças aos acertos da área econômica a cargo de Fernando Haddad, a inflação caiu para patamares próximos de 4%, dentro da meta do Conselho Monetário Nacional. Os gastos públicos passaram a respeitar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. O desemprego recuou a níveis historicamente baixos. Apesar disso, o tom dominante na imprensa e entre analistas de mercado passou a ser o de alarde: desancoragem das expectativas, risco de descontrole fiscal, ameaça de hiperinflação. Amplificam-se cenários pessimistas diante de dados concretos que apontam estabilidade.
Por que tamanha assimetria? Não é pelos indicadores – isso é evidente. A diferença está na relação política entre governo e chamado “mercado” - os donos do capital. Bolsonaro era lido como alinhado à agenda neoliberal, com Paulo Guedes à frente de um programa de privatizações e reformas. Isso funcionava como um escudo. Os problemas eram relativizados, tratados como conjunturais. Lula, ao contrário, carrega a marca de políticas sociais e maior presença do Estado. E isso desperta uma desconfiança estrutural no capital. O discurso de risco, nesse contexto, opera como instrumento de pressão política: ajuda a manter os juros elevados e a limitar a expansão de programas sociais.
As consequências não são meramente retóricas. Ao amplificar riscos sob Lula, imprensa e mercado alimentam um ambiente de desconfiança que pode influenciar as decisões do Banco Central e inibir investimentos, influenciando decisivamente no humor eleitoral. Ao relativizar os problemas sob Bolsonaro, normalizaram uma situação de inflação elevada e deterioração fiscal. Em ambos os casos, a cobertura revela mais as disputas políticas do que a realidade dos números.
O que se tem, portanto, é dois pesos e duas medidas na leitura da inflação brasileira. Com Bolsonaro, problemas reais foram tratados como conjunturais. Com Lula, a estabilidade virou alerta vermelho. A narrativa econômica não é neutra. Ela é atravessada por interesses políticos e ideológicos. Reconhecer essa assimetria é condição para entender não apenas os índices de preços, mas o jogo de poder que se desenrola em torno deles.
● Chico Cavalcante é jornalista.

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