● POR HIROSHI BOGÉA – “ESTAMPAS EUCALOL” É A CELEBRAÇÃO DO PODER DA MENTE INFANTIL, QUE NÃO CONHECE FRONTEIRAS ENTRE A LITERATURA CLÁSSICA, A CULTURA POPULAR E A FANTASIA PURA – Lá pelos anos 1940, surgiram as estampas Eucalol, famosas figurinhas colecionáveis distribuídas nas embalagens de sabonetes e cremes dentais da marca Eucalol. Elas traziam de tudo: mitologia, história universal, lendas brasileiras, fauna e flora. Para as crianças daquela época, aqueles pedaços de papel eram janelas para o infinito. A música “Estampas Eucalol” de Hélio Contreiras, imortalizada na voz de Xangai, transforma o colecionador em um cavaleiro da própria imaginação. Ao cantar "montado no meu cavalo, libertava Prometeu / toriava o Minotauro, era amigo de Teseu", Xangai não reconta apenas mitos gregos; ele descreve a infância em que o quintal de casa era o Monte Olimpo e o oceano abissal cabia em uma banheira. Existe um sincretismo geográfico e temporal primoroso na letra: o eu lírico viaja do abismo de Netuno à Lua para ajudar São Jorge a lutar contra o dragão, para depois aterrizar na realidade lúdica de "roubar a professora do Rei Lear". É a celebração do poder da mente infantil, que não conhece fronteiras entre a literatura clássica, a cultura popular e a fantasia pura. No vídeo, a atmosfera ganha contornos de sonho. Enquanto a viola de Xangai dita o ritmo cavalgado da canção, arranjos sofisticados de violoncelo, acordeom e percussão criam uma tapeçaria sonora que flutua entre o erudito e o sertanejo de raiz. Há uma delicadeza visual quase mágica: flores amarelas e verdes parecem levitar sobre o palco, criando a ilusão de que os músicos estão imersos na própria estampa que descrevem. A dinâmica entre Xangai e Carol Carneiro é de uma cumplicidade magnética. Ela, em seu vestido coral vibrante, traz uma doçura que contrasta perfeitamente com a voz rústica, firme e impecavelmente afinada do cantador. Eles não cantam apenas um para o outro, mas guiam a plateia através dessa viagem no tempo. Assistir a Xangai cantar "Estampas de Eucalol" em 2026 é um lembrete urgente de que a nossa maior riqueza reside na capacidade de fantasiar. Em um mundo hiperconectado e digital, a crônica dessa apresentação nos devolve a pureza do papel, a grandiosidade dos mitos e a beleza de um Brasil que sabe sonhar acordado. Xangai nos devolve, por alguns minutos, a chave do nosso próprio quintal de infância.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Fique a vontade para comentar o que quiser, apenas com coerência e sem ataques pessoais.