quarta-feira, 8 de julho de 2026

● Então, se aquele impertinente bolsonarista atacar com um dos chavões recorrentes e perguntar "onde a esquerda deu certo?", a Noruega é um ótimo exemplo.

O QUE A NORUEGA TEM A NOS ENSINAR FORA DOS CAMPOS – O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo 2026 pela Noruega. Antes e depois desse episódio, milhares de conteúdos sobre o país de Erling Haaland inundaram as redes sociais, muitos publicados por extremistas de direita que tentaram incluir o governo brasileiro e nosso povo numa espécie de disputa direta pela qualidade de vida, como se a Noruega fosse "superior em todos os aspectos".

É uma tendência recorrente no debate público brasileiro olhar para países nórdicos e atribuir sua prosperidade a fatores culturais ou raciais, ignorando o peso decisivo das escolhas políticas e institucionais. Essa leitura enviesada, propagada por setores da direita nacional, distorce a realidade e alimenta preconceitos. A Noruega não é rica porque seus cidadãos são brancos; é rica porque construiu, ao longo de décadas, um modelo social-democrata capaz de combinar justiça social, responsabilidade fiscal e desenvolvimento econômico.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Partido Trabalhista, de orientação de esquerda, liderou a reconstrução com uma visão clara: criar um Estado de bem-estar universal. Saúde pública gratuita, educação acessível em todos os níveis e uma rede de seguridade social robusta tornaram-se pilares da sociedade norueguesa. Esse pacto pragmático investiu em capital humano e garantiu proteção social, criando as bases para uma economia interna sólida e resiliente.

Nos anos 1970, a descoberta de petróleo no Mar do Norte poderia ter sido uma maldição, como ocorreu em tantos países dependentes de commodities. Mas a Noruega fez diferente ao criar o Fundo Soberano, que investe os lucros do petróleo no exterior e garante reservas para futuras gerações, evitando a inflação interna e blindando a economia contra crises. Mais que riqueza imediata, o país escolheu a sustentabilidade de longo prazo.

Outro traço distintivo é a cooperação entre governo, sindicatos e empresários. Em vez de conflitos destrutivos, prevaleceu a negociação coletiva, assegurando salários justos, estabilidade no mercado de trabalho e distribuição de renda relativamente igualitária, o que resulta em uma sociedade coesa, onde o crescimento econômico não se traduz em exclusão social.

É revelador que até os partidos conservadores noruegueses aceitam o Estado de bem-estar como dado irrefutável. O debate político gira em torno de como administrar melhor esse modelo, não de negá-lo. A direita norueguesa pode divergir em eficiência, impostos ou regulação, mas não questiona a legitimidade de políticas sociais universais. Essa postura contrasta com setores da direita brasileira, que frequentemente atacam direitos sociais, agridem instituições e recorrem a explicações raciais simplistas para justificar desigualdades. 

A narrativa de que a Noruega prospera por ser um país de brancos é falsa e perigosa. Ignora que a prosperidade é fruto de instituições inclusivas, políticas redistributivas e uma cultura política que valoriza o coletivo. Reduzir o sucesso norueguês a uma questão de cor de pele é negar a história e reforçar preconceitos.

O que a Noruega tem a nos ensinar fora dos campos é simples e profundo. Sociedades fortes se constroem com políticas públicas consistentes, instituições transparentes e valorização do bem comum. O Brasil não precisa importar a cor da pele dos noruegueses, mas sua capacidade de construir consensos em torno da justiça social e da responsabilidade fiscal. Prosperidade não é privilégio de poucos, mas resultado de escolhas coletivas.

A Noruega mostra que não há atalhos culturais ou raciais para o desenvolvimento. O caminho passa por política, instituições e valores democráticos. Fora dos campos, a lição é clara: o futuro de uma nação depende menos da cor de sua população e mais da qualidade de suas escolhas coletivas. Essa é a verdadeira superioridade que devemos perseguir.

Então, se aquele impertinente bolsonarista atacar com um dos chavões recorrentes e perguntar "onde a esquerda deu certo?", a Noruega é um ótimo exemplo.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fique a vontade para comentar o que quiser, apenas com coerência e sem ataques pessoais.