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O QUE A NORUEGA TEM A NOS ENSINAR FORA DOS CAMPOS – O Brasil foi eliminado da
Copa do Mundo 2026 pela Noruega. Antes e depois desse episódio, milhares de
conteúdos sobre o país de Erling Haaland inundaram as redes sociais, muitos
publicados por extremistas de direita que tentaram incluir o governo brasileiro
e nosso povo numa espécie de disputa direta pela qualidade de vida, como se a
Noruega fosse "superior em todos os aspectos".
É uma tendência recorrente no debate público brasileiro
olhar para países nórdicos e atribuir sua prosperidade a fatores culturais ou
raciais, ignorando o peso decisivo das escolhas políticas e institucionais.
Essa leitura enviesada, propagada por setores da direita nacional, distorce a
realidade e alimenta preconceitos. A Noruega não é rica porque seus cidadãos
são brancos; é rica porque construiu, ao longo de décadas, um modelo
social-democrata capaz de combinar justiça social, responsabilidade fiscal e
desenvolvimento econômico.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Partido Trabalhista, de
orientação de esquerda, liderou a reconstrução com uma visão clara: criar um
Estado de bem-estar universal. Saúde pública gratuita, educação acessível em
todos os níveis e uma rede de seguridade social robusta tornaram-se pilares da
sociedade norueguesa. Esse pacto pragmático investiu em capital humano e
garantiu proteção social, criando as bases para uma economia interna sólida e
resiliente.
Nos anos 1970, a descoberta de petróleo no Mar do Norte
poderia ter sido uma maldição, como ocorreu em tantos países dependentes de
commodities. Mas a Noruega fez diferente ao criar o Fundo Soberano, que investe
os lucros do petróleo no exterior e garante reservas para futuras gerações,
evitando a inflação interna e blindando a economia contra crises. Mais que
riqueza imediata, o país escolheu a sustentabilidade de longo prazo.
Outro traço distintivo é a cooperação entre governo,
sindicatos e empresários. Em vez de conflitos destrutivos, prevaleceu a
negociação coletiva, assegurando salários justos, estabilidade no mercado de
trabalho e distribuição de renda relativamente igualitária, o que resulta em
uma sociedade coesa, onde o crescimento econômico não se traduz em exclusão
social.
É revelador que até os partidos conservadores noruegueses aceitam o Estado de bem-estar como dado irrefutável. O debate político gira em torno de como administrar melhor esse modelo, não de negá-lo. A direita norueguesa pode divergir em eficiência, impostos ou regulação, mas não questiona a legitimidade de políticas sociais universais. Essa postura contrasta com setores da direita brasileira, que frequentemente atacam direitos sociais, agridem instituições e recorrem a explicações raciais simplistas para justificar desigualdades.
A narrativa de que a Noruega prospera por ser um país de
brancos é falsa e perigosa. Ignora que a prosperidade é fruto de instituições
inclusivas, políticas redistributivas e uma cultura política que valoriza o
coletivo. Reduzir o sucesso norueguês a uma questão de cor de pele é negar a
história e reforçar preconceitos.
O que a Noruega tem a nos ensinar fora dos campos é simples
e profundo. Sociedades fortes se constroem com políticas públicas consistentes,
instituições transparentes e valorização do bem comum. O Brasil não precisa
importar a cor da pele dos noruegueses, mas sua capacidade de construir consensos
em torno da justiça social e da responsabilidade fiscal. Prosperidade não é
privilégio de poucos, mas resultado de escolhas coletivas.
A Noruega mostra que não há atalhos culturais ou raciais
para o desenvolvimento. O caminho passa por política, instituições e valores
democráticos. Fora dos campos, a lição é clara: o futuro de uma nação depende
menos da cor de sua população e mais da qualidade de suas escolhas coletivas.
Essa é a verdadeira superioridade que devemos perseguir.
Então, se aquele impertinente bolsonarista atacar com um dos
chavões recorrentes e perguntar "onde a esquerda deu certo?", a
Noruega é um ótimo exemplo.

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