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POR QUE A BANDEIRA DE LULA TEM QUE VOLTAR A SER VERDE E AMARELA – Há uma
hesitação recorrente na esquerda brasileira diante das cores nacionais, e ela
não é gratuita. Desde que o bolsonarismo transformou a camisa da seleção em
uniforme de movimento político, parte do campo progressista passou a tratar o
verde e amarelo como território minado, algo a evitar por prudência ou por
desconforto. Essa hesitação, contudo, tem um custo que talvez já supere o risco
que pretende evitar.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro nem recente.
Manuel Loff, historiador da Universidade do Porto, observa que os símbolos
nacionais dos Estados modernos nasceram, em boa parte, de tradições
democráticas e populares, concebidos para afirmar o povo acima de monarcas e
hierarquias. A apropriação desses símbolos por movimentos de extrema direita é,
segundo ele, um fenômeno que se repete em diferentes países e que tende a
corroer justamente a função unificadora que a bandeira deveria cumprir.
No caso brasileiro, esse processo ganhou contornos
particulares. Foi um sequestro cognitivo em larga escala. A associação entre os
símbolos pátrios e gestos de conotação bélica, como o simular de uma arma com
as mãos, ou a fusão entre imaginário religioso e nacionalismo, deu à
apropriação bolsonarista um caráter mais agressivo do que em outros contextos.
O sociólogo Michel Gherman, da UFRJ, nota que a camisa amarela da seleção ainda
carrega, para parte da população, associações com bloqueios de estrada e atos
de contestação ao resultado eleitoral de 2022. Ana Caroline Almeida, da UFAL,
vai além ao apontar que, em contextos ultranacionalistas, a bandeira tende a
deixar de representar o país como um todo para se tornar sinônimo de uma facção
específica, o que fragiliza a própria ideia de nação como projeto
compartilhado.
Diante desse quadro, é compreensível que setores da
esquerda tenham optado, em 2022, por manter distância dos símbolos nacionais na
comunicação de campanha. Tratava-se de evitar um terreno que parecia totalmente
ocupado pelo adversário. Mas essa escolha, por mais razoável que tenha parecido
no calor da disputa, carrega um risco de médio prazo. Ao abrir mão da disputa
simbólica, a esquerda corre o risco de consolidar, por omissão, a ideia de que
patriotismo e bolsonarismo são sinônimos, quando na prática o que houve foi o
oposto. Um governo que se apresentou como guardião da soberania nacional
entregou ativos estratégicos, subordinou a política externa a alinhamentos
automáticos e enfraqueceu a capacidade do Estado de proteger a própria
população.
Esse contraste entre discurso e prática é, talvez, o
argumento mais forte para que a campanha de Lula em 2026 repense sua relação
com as cores nacionais. Não se trata de disputar patriotismo no sentido
ufanista, de hino e continência, mas de recuperar um sentido mais republicano
da palavra, ligado ao compromisso com instituições democráticas, com a redução
da desigualdade e com a defesa de um projeto de país que não se resuma a um
grupo político. Há, nesse sentido, uma diferença relevante entre nacionalismo
excludente e patriotismo cívico, e é nessa diferença que a disputa simbólica
pode encontrar legitimidade.
Reocupar o verde e amarelo não significa copiar a
estética do adversário, tampouco insistir num confronto direto de símbolos que
pode soar artificial. Significa, antes, permitir que essas cores apareçam com
naturalidade em contextos que já fazem parte da vida institucional e cultural
do país, de eventos esportivos a campanhas de saúde pública, sem o
constrangimento que hoje parece acompanhar seu uso por parte de setores
progressistas. É um trabalho de reconstrução simbólica que não se resolve numa
única campanha eleitoral, mas que também não avança se for permanentemente
adiado.
O bolsonarismo investiu, com disciplina, na construção de uma identidade visual e afetiva em torno desses símbolos, e essa vantagem não desaparece por decreto. Mas tampouco é permanente. A bandeira, o hino e a camisa da seleção pertencem, formalmente e simbolicamente, a todos os brasileiros, e a hesitação em reivindicar essa pertença tem funcionado, na prática, como uma concessão silenciosa. Se a campanha de Lula quiser evitar o erro de 2022, talvez o primeiro passo seja menos convocar as ruas para uma disputa de bandeiras e mais permitir que o verde e amarelo voltem a aparecer sem culpa nem cálculo excessivo, como parte do repertório natural de quem realmente ama o país e defende valentemente sua soberania. Porque, ao fim e ao cabo, o verdadeiro patriota nessa disputa não é outro senão o próprio presidente Lula.
*Chico Cavalcante é jornalista

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