● A DESILUSÃO DOS JOVENS E AS TAREFAS DE UMA NOVA ESQUERDA – Conforme levantamento do cientista político Murilo Medeiros, legendas perderam 54% do total de inscritos em uma década e meia. Os dados são contundentes e devem servir como um sinal de alerta máximo para o campo progressista. Em 16 anos, os partidos brasileiros perderam quase 1,5 milhão de jovens filiados, um esvaziamento que atinge todas as grandes legendas e expõe uma fratura geracional profunda. Não se trata de apatia, mas de uma desilusão ativa. A juventude não abandonou a política; abandonou as estruturas anacrônicas que insistem em não ouvi-la.
O diagnóstico apresentado na reportagem sobre a pesquisa, com a dolorosa trajetória de Gabriel Cassiano, é exemplar. As vésperas de disputar uma vaga na câmara municipal de São Paulo em 2020, ele elaborou um programa de governo de 133 páginas. Hoje não cogita voltar à política e resume o sentimento de uma geração. Para ele, os partidos possuem uma "estrutura anacrônica e viciada" que retroalimenta um sistema de "conchavos individuais" e não apresentam “soluções concentras” para os problemas da juventude. Essa é a voz de quem buscava um projeto de nação e se deparou com a política como um fim em si mesma.
A esquerda, em particular, precisa encarar este desafio com humildade e coragem. Pesquisas recentes mostram que apenas 18% dos jovens se identificam com a esquerda, enquanto 44% se declaram de centro e 38% à direita . Mesmo entre aqueles que defendem pautas progressistas, há uma resistência crescente ao rótulo "de esquerda". Isso não é um deslocamento ideológico linear, mas o resultado de ataques sistemáticos de duas décadas ao conceito de esquerda e a falência de um modelo de comunicação e de uma prática política que se tornou refém de sua própria burocracia.
O economista e articulista Pedro Marin oferece uma pista fundamental para entender esse fenômeno. Esta juventude não viveu os governos petistas em sua fase ascendente, quando foi parte ativa de uma inversão de prioridades que tirou milhões da fome, pagou a dívida externa e recolocou a economia brasileira entre as mais prósperas do mundo. Sua experiência política se formou na era Temer e Bolsonaro, sob o signo do desmonte do Estado e do "teto de gastos". Para ela, o Estado não é um agente de transformação, mas um obstáculo ou, na melhor das hipóteses, uma entidade que promete o mínimo e entrega menos ainda. A criação de empregos precários, mesmo para quem tem formação superior, e um "arcabouço fiscal" que replica a lógica austera do passado só alimentam a sensação de que não há futuro “no sistema” e “o sistema” não é visto como aquilo que é - o modo de produção e de circulação capitalistas.
Dito de outro modo, quando a massa diz "o sistema", ela nomeia algo vago, difuso, uma névoa de instituições e regras, que flerta com as teorias da conspiração, mas não nomeia o modo de produção capitalista - que é o sistema efetivo, estrutural, que produz a precariedade como regra e não como exceção.
Diante desse quadro, quais são as tarefas de uma nova esquerda que queira se reinventar?
Primeiro, superar a dicotomia estéril entre "luta de classes" e "pautas identitárias". Gabriel Cassiano toca em um ponto nevrálgico ao perguntar: "E o coletivo do projeto nacional de desenvolvimento? Onde está?". A esquerda não pode se furtar a apresentar um projeto concreto de país. É preciso retomar a bandeira do desenvolvimentismo com um rosto novo. Como defende o intelectual Elias Jabbour, a juventude anseia por esperança, e essa esperança passa por um projeto de reindustrialização e geração de emprego de qualidade que ofereça um horizonte para além da sobrevivência.
Segundo, é urgente "desenvelhecer" a esquerda. Não se trata apenas de abrir espaço para uma transição geracional, com mais jovens nas listas partidárias, mas de renovar a linguagem, os métodos e a própria cultura política. A juventude vive no ambiente digital, e a esquerda precisa disputar esse território como um dia disputou os sindicatos e associações de moradores, com a mesma eficiência da direita, que na atualidade já o ocupa, com influenciadores e narrativas simplificadas. A comunicação não pode ser um monólogo de siglas e resoluções, mas um diálogo que fale com a linguagem, a estética e as angústias da geração Z.
Terceiro, e mais importante, é preciso recuperar a capacidade de ouvir e de formular respostas para as questões concretas que afligem os jovens. A precarização do trabalho, a dificuldade de acesso à moradia, a ansiedade climática e a sensação de que a inteligência artificial os tornará obsoletos antes mesmo de começarem a carreira. A esquerda que se preza não pode responder a essas angústias com moralismo ou com o consolo de que "é o possível dentro do capitalismo". É preciso ousadia para propor alternativas radicais e concretas.
A deserção dos jovens dos partidos não é uma sentença, mas um diagnóstico. A nova esquerda que encara esse cenário precisa ser mais corajosa, mais digital, mais nacional-desenvolvimentista e, acima de tudo, menos presa a si mesma. O futuro do Brasil, ou será construído com a energia transformadora da juventude, ou será tragado pelo niilismo que a direita digital tão bem soube instrumentalizar. A tarefa é histórica e inadiável.
Chico Cavalcante é jornalista

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