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FALAR COM QUEM TRABALHA PODE MUDAR O RUMO DESSA ELEIÇÃO - Às seis da manhã,
enquanto as campanhas preparam seus discursos, uma parte do Brasil já está
tentando pagar as contas. A comerciante abre a loja, o motorista calcula o
gasto com combustível, a manicure confirma horários, o pedreiro carrega as
ferramentas. Para essas pessoas, a economia está no aluguel, na prestação da
moto e no cliente que desapareceu. Se nossa campanha pretende conquistar sua
confiança, precisa compreender essa experiência antes de pedir que elas
reconheçam as realizações do governo.
As interpretações do primeiro turno recolocam uma
pergunta que a esquerda precisa enfrentar. Por que trabalhadores que poderiam
se reconhecer em nossas propostas procuram respostas na direita? Nenhum
resultado eleitoral tem uma causa única, e a renda de um bairro não explica o
voto de cada morador. Mas atribuir esse afastamento apenas à desinformação
impede uma investigação necessária sobre o que esses brasileiros esperam da
política e o que deixaram de encontrar nela.
Parte do problema está na maneira de conversar. Diante de
um autônomo ou pequeno empreendedor, a esquerda frequentemente explica sua
precariedade antes de reconhecer sua iniciativa. Quem comprou ferramentas em
prestações, aprendeu uma profissão, comprou a moto à prestação e conquistou
clientes sabe que trabalha demais. Também sente orgulho do que construiu.
Quando a política enxerga apenas sua vulnerabilidade, oferece um retrato
incompleto de sua vida e entrega aos adversários as palavras da conquista, da
ambição e do futuro.
A direita ocupa esse espaço com uma promessa de futuro
que encontra frustrações concretas. O imposto pesa, a burocracia consome tempo,
o crédito custa caro. O discurso é cínico porque omite o poder dos bancos e das
plataformas e o fato deles já terem governado o país, mas reconhece
dificuldades que o trabalhador conhece. Isso gera empatia. Quem abre um salão
ou vende comida por encomenda precisa perceber como um projeto político poderá
ajudá-lo a ampliar a renda, atender mais clientes e atravessar os meses ruins.
Simplificar a vida do pequeno negócio deveria integrar
nossa resposta. Uma padaria com poucos empregados deve preservar direitos e
cumprir suas obrigações, mas precisa conseguir fazê-lo sem carregar a estrutura
administrativa de uma grande rede. Regras compreensíveis, orientação acessível
e procedimentos proporcionais ao tamanho da empresa ajudam a cumprir a lei. O
mesmo vale para quem cresce além do MEI. A transição precisa ser previsível,
para que uma oportunidade de expansão possa virar investimento e contratação.
Nos aplicativos, a discussão exige reconhecer o valor da
autonomia e os riscos do trabalho. Escolher horários pode ser importante para
quem precisa cuidar dos filhos ou combinar atividades. Essa liberdade, porém,
fica limitada quando a remuneração muda sem explicação ou um bloqueio
interrompe a renda sem possibilidade de defesa. Proteção previdenciária,
cobertura contra acidentes e transparência devem ser construídas com a
participação dos trabalhadores. Nossa proposta precisa mostrar como as
garantias funcionarão e quem pagará por elas.
Também seria um erro reduzir essa agenda a impostos. A
mãe que faz bolos precisa de creche para aceitar encomendas. O eletricista
depende de transporte e segurança para chegar ao cliente. Uma doença sem
atendimento pode consumir a renda de uma família. Serviços públicos participam
da capacidade de produzir e prosperar. Essa ligação precisa aparecer na
conversa eleitoral, mostrando como escola, saúde e infraestrutura podem reduzir
despesas, liberar tempo e tornar menos arriscado tentar crescer.
No interior, é necessário conhecer a economia local. Uma
estrada permite escoar mercadorias; uma conexão confiável ajuda a vender;
compras públicas acessíveis e pagamentos em dia podem sustentar pequenos
fornecedores. Tratar esses municípios apenas como territórios bolsonaristas
dispensa a investigação sobre a vida de seus moradores. Disputar seus votos
exige conhecer os obstáculos que enfrentam e apresentar compromissos adequados
a essa realidade.
Lula pode conversar com esse Brasil a partir de sua
trajetória, mas o passado precisa ajudar a explicar o futuro. Quem procura
clientes hoje quer saber o que poderá mudar nos a sobre o orçamento doméstico. Defender as
realizações do governo exige reconhecer o que continua difícil e apresentar
propostas que possam ser compreendidas numa situação cotidiana.
Falar com quem trabalha pode mudar o rumo dessa eleição
se a conversa produzir reconhecimento e confiança. O eleitor precisa encontrar
espaço para seu esforço, seu orgulho e seu desejo de melhorar de vida, assim
como para o cansaço e a insegurança. Ao fechar o caixa ou encerrar a jornada,
ele quer saber se tanto trabalho poderá se transformar numa vida melhor. A
campanha de Lula precisa responder com respeito, clareza e compromissos
verificáveis para ter uma chance de conquistar seu voto e virar essa eleição.
● Chico
Cavalcante é jornalista ▼
https://blogdonelsonvinencci.blogspot.com/

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