O MARAMBIRÉ (Crônica de Luiz Ismaelino Valente)
Um belo dia, no começo da década de 1970, eu e meu irmão
Flaiury resolvemos homenagear os quilombolas do Pacoval – distrito do município
de Alenquer, um dos mais importantes ajuntamentos de negros escravos evadidos das
fazendas de Santarém, que se formaram, por todo o século XIX, na região Oeste
do Pará, ou Baixo Amazonas –, notabilizado por sua mandinga e pela fabricação
de uma bebida, de fórmula até hoje secreta, o remédio dos pretos, poderoso soro anti-ofídico tão elogiado por Vital
Brasil, do Instituto Butantã (SP).
Meu avô e meu pai contavam a lenda (eu nunca consegui
saber se a história era verdadeira!...) de que um dos líderes do Pacoval, o
preto Assis, casou-se com uma bela moça branca, de nome Rosa, rica e orgulhosa
herdeira de comerciantes portugueses do Boulevard Castilho França, de Belém,
que, entretanto, ao visitar Alenquer, em priscas eras, primeiro desprezou o quilombola, mas, depois, não resistiu aos encantos (ou
terá sido ao feitiço?) do jovem do Pacoval, onde com ele passou a viver até
morrer em idade provecta. Continue lendo...
Criei, assim, um poema, que meu irmão musicou. A
introdução da música – mistura, quiçá, de dialeto africano com dialeto
indígena, cuja tradução literal nunca logrei obter –, reproduz a saudação
inicial e a despedida da dança do Marambiré, cantadas na chegada e na saída das
casas visitadas pelo cordão.
Essa saudação/despedida comporta outras variações. Mas a
versão que escolhemos para esta composição baseia-se no testemunho, colhido por
meu avô e por meu pai, diretamente do velho Árgeo Milharal, abnegado cultor e mantenedor,
durante muitos anos, dessa manifestação folclórica da cultura negra tipicamente
alenquerense.
De fato, essa dança é conhecida, com algumas variações,
em outras localidades do Baixo Amazonas, como no Flechal, de Óbidos, e
Alter-doChão, em Santarém (onde é chamada muirambiré), mas, segundo a erudita, abalizada
e insuspeita opinião do maestro Adelermo Matos, que fez pesquisas in loco
patrocinadas pelo então prefeito José Valente, ainda nos anos sessenta do século passado, “o autêntico Marambiré é o
que se pratica na vila do Pacoval de Alenquer” todos os anos, em cordões, entre
o Natal e o dia de São Benedito (6 de janeiro), padroeiro daquela vila e do
bairro da Luanda, mas, às vezes, esticado até à festa de São Sebastião (20 de
janeiro), padroeiro do arqui-rival bairro do Aningal, e, também, em junho,
durante os festejos de Santo Antônio, padroeiro da cidade – o que bem mostra o
caráter fraterno, eclético e apaziguador do Marambiré.
Os trajes dos dançarinos do cordão do Marambiré são bem
modestos (na verdade, são as “roupas de domingo” dos seus participantes), porém
realçados por espelhos e cocares coloridos, feitos de fita, papel e penas de pássaros
(que, em nome do ecologicamente correto, vêm sendo substituídas nos dias de
hoje por outros materiais).
O ritmo da dança provém dos bumbos, pandeiros, cavaquinho
e violão. As letras das músicas têm uma forte conotação religiosa (invocando principalmente
São Benedito), e, ao mesmo tempo, rendem um tributo à nobreza – ao Rei e à
Rainha do Congo e seus vassalos (com o tempo, graças ao fenômeno de
transformação fonética, a palavra vassalos, quer dizer, os súditos do Rei e da Rainha do Congo, passaram a ser
chamados de valsares, palavra que o léxico não registra).
O Pacoval e o Marambiré do tempo antigo continuam
indeléveis na memória dos alenquerenses: gente como o Aralto, o mestre Eládio,
a dona Coroca, o velho Árgeo Milharal, a Raimunda Poeira (que durante décadas
foi uma inigualável Rainha do Congo), o Carolino, o Inácio, o Santa Rira e
tanta gente que o tempo não esquece, jamais!
Nesta composição, meu irmão foi buscar, na música, o
ritmo inconfundível do Marambiré, talvez enraizado no lundu, matriz de tantas
outras danças de inspiração africana; e, na letra, procurei evocar o mais rico
legado cultural do quilombo do Pacoval: seu remédio, sua mandinga, o Marambiré
e uma belíssima história de amor.
Composta no começo da década de 1970 – e incluída na CD
“Viva Alenquer” (produzido por Benedicto Monteiro em 2002), cantada por Lídia
Leite –, a música Marambiré teve sua primeira apresentação pública, com arranjo
do competente maestro Anselmo Queiróz, no Auditório “Nathanael Farias Leitão”, em
Belém, no dia 9 de janeiro de 2003, por ocasião da minha posse no cargo de
Corregedor-Geral do Ministério Público do Estado do Pará.
Eis a letra (depois de cada quadra, repete-se o refrão):
MARAMBIRÉ
Aiuê te-cundê
Gurupê, moaxiá, (bis)
Ambirá,
Bambauá ererê!
O marambiré
É do Pacoval (refrão / bis) Terra de puro sangue
Raça que não tem mal.
I
Não há beleza mais linda
Nem nas noites de luar
Que com a beleza da Rosa
A gente vá comparar.
II
A senhora Dona Rosa
Era prosa sim senhor:
– Rosa sem ter espinhos
Não é rosa e não é flor.
III
Do remédio desses pretos
Basta só uma colher:
– Pois se doma até as cobras
Quanto mais uma mulher!
IV
Não há feitiço que doa
Quando é de bem querer:
– Em Pacoval, terra boa,
Dona Rosa foi viver.
V
A senhora Dona Rosa
Se casou com o preto Assis:
– Mas se antes era prosa
Ao depois viveu feliz!
VI
Foi a Rainha do Congo
Que dançou no terreiro:
É a rainha da festa
É a mulher do guerreiro
Foi a Rinha do Congo
Que dançou o terreiro
É a rainha da festa
É a Raimunda Poeira!!
Aiuê te-cundê Gurupê, moaxiá,
Ambirá, Bambauá ererê!

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