O governo do Pará em breve testará em sua rede um modelo
de organização escolar que, nos Estados Unidos, tem gerado debates acalorados
entre educadores. São as chamadas escolas “charter”, administradas pela
iniciativa privada, mas que atendem gratuitamente alunos de baixa renda com
financiamento público.
O projeto conta com o apoio do IFC, instituto do Banco
Mundial que tem atuado no Brasil em desenvolvimento de projetos de parcerias
público-privado (PPPs). Serão construídas 50 escolas de ensino médio. Segundo
Tomas Anker, especialista de projetos de PPP no instituto, a ideia — como já
acontece num contrato de concessão de rodovia, por exemplo — é que o pagamento
da organização privada que assumir a gestão desses colégios seja atrelado a
indicadores de desempenho. Entre eles devem constar níveis de aprendizado
medidos em avaliações externas, taxas de evasão e repetência, e garantias de
equidade no perfil do aluno atendido.
O secretário de Educação do Pará, Helenilson Pontes, sabe
que a ideia é polêmica. Ele aposta, porém, que, por serem escolas novas, a
resistência será menor: “Não haverá transferência ou fechamento de escolas, nem
redução de vagas ou salários. O Pará tem um dos piores índices de educação do
Brasil. Isso nos leva a procurar alternativas, mesmo que signifique enfrentar
tabus”.
O que o governo do Pará e o IFC pretendem testar no
Brasil é se escolas públicas, quando geridas pela iniciativa privada e
recebendo níveis similares de financiamento, seriam mais eficientes.
Essa resposta não será simples. Basta olhar para a
experiência dos Estados Unidos, país que mais tem testado a fórmula, e que hoje
conta com mais de 6 mil escolas com esse perfil. Entre os defensores das
charters por lá, havia a expectativa de que elas apresentassem melhores
resultados do que as públicas. Em alguns estados, estudos confirmaram essa
hipótese.
O movimento cresceu também graças aos bons resultados de
algumas redes de colégios que chamaram atenção da opinião pública. Para os
favoráveis ao modelo, o fato de ter funcionado em alguns estados e de haver
casos exemplares mostra que ele, quando bem gerido, é viável. Seus críticos,
porém, apontam com frequência que essas escolas tidas como excepcionais em
geral recebem financiamento extra, atendem menos alunos com problemas
disciplinares, e dariam ênfase excessiva para a preparação para testes.
As avaliações mais amplas já realizadas por lá ainda não
permitem afirmar que, em nível nacional, as charters sejam mais eficientes. Um
estudo encomendado pelo Ministério da Educação americano ao instituto
Mathematica concluiu em 2011 que, apesar de pais e alunos reportarem níveis
maiores de satisfação nos colégios administrados pela iniciativa privada, os
resultados dos estudantes em testes de leitura e matemática não eram diferentes
dos encontrados nas públicas tradicionais.
Outro grande estudo, este conduzido em 2013 pela
Universidade Stanford, concluiu que, em matemática, 29% das charters se saíam
melhor que as públicas tradicionais; 40%, iguais; e 31%, piores. Os autores da
pesquisa ressaltaram que esses percentuais, quando comparados com o ano de
2009, mostravam melhoria das charters, em boa parte graças ao fechamento de
algumas com baixo desempenho.
Em resumo, a experiência americana tem mostrado até agora
que há tanto ótimas escolas charters quanto outras que deixam muito a desejar.
Ser gerido pela iniciativa privada, portanto, não foi garantia de sucesso ou
fracasso. No caso do Pará, por ser um tema que desperta paixões, é preciso
avaliar com rigor a iniciativa sem perder de vista o que realmente importa:
saber se os alunos estão ou não se beneficiando dela. (O Globo)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Fique a vontade para comentar o que quiser, apenas com coerência e sem ataques pessoais.