sexta-feira, 26 de junho de 2026

● A principal lição desse episódio é de método: antes de interpretar a cena, é preciso perguntar quem escreveu o roteiro...

● A ARMADILHA SEMIÓTICA OU COMO A ESQUERDA MORDEU A ISCA DE MICHELLE BOLSONARO – Enquanto um terremoto devastava cidades na Venezuela, outro abalo, desta vez simbólico, sacudia a política brasileira. A suposta revelação de Michelle Bolsonaro sobre humilhações sofridas dentro da própria família foi recebida por parte da imprensa e por setores expressivos da esquerda como evidência de uma implosão iminente do bolsonarismo. Anunciou-se um racha histórico entre Michelle e Flávio Bolsonaro, como se o episódio marcasse o início da dissolução da principal corrente da direita brasileira. A reação, no entanto, diz menos sobre o bolsonarismo do que sobre a dificuldade de seus adversários em compreender a lógica contemporânea da disputa política.

O erro central é confundir narrativa com realidade. Em política, sobretudo na era das plataformas digitais, aquilo que parece espontâneo frequentemente é resultado de uma operação cuidadosamente construída. O suposto conflito familiar produziu exatamente o efeito desejado: deslocou a atenção pública para um “drama pessoal” e substituiu discussões substantivas por um roteiro emocional capaz de monopolizar a agenda. Enquanto todos debatiam lágrimas e ressentimentos familiares, temas potencialmente mais danosos ao campo bolsonarista desapareceram do debate público.

A hipótese de ruptura estrutural dentro do projeto político da família carece de sustentação. Flávio Bolsonaro (PL) permanece como um dos principais operadores do grupo, controla mecanismos partidários relevantes e redes de apoio no exterior e segue sendo herdeiro natural do capital político construído por seu pai na última década. Disputas pelo poder de mando existem em qualquer família política, isso está longe de significar cisão estratégica. Confundir disputa por protagonismo com racha ideológico é ignorar como funcionam correntes políticas consolidadas. Michelle e Flávio não representam projetos distintos de país; compartilham a mesma base eleitoral, o mesmo universo simbólico e, em linhas gerais, o mesmo legado. O que os diferencia são posições na corrida pela liderança futura e pelo controle dos ativos eleitorais do bolsonarismo.

Foi justamente nesse quadrante que a esquerda caiu na armadilha. Ao transformar o episódio em manchete permanente, reproduziu o que estrategistas do adversário buscam produzir: centralidade. Durante dias, Michelle ocupou capas de jornais, portais e algoritmos. Pouco importava se as abordagens eram críticas ou favoráveis — no ambiente digital, visibilidade é um ativo político independente do julgamento moral que a acompanha. Os algoritmos não distinguem denúncia de propaganda; premiam circulação, repetição e engajamento. Cada comentário indignado e cada análise produzida por adversários ampliou o alcance da personagem. Ao tentar desconstruir sua imagem, muitos participaram involuntariamente de sua reconstrução no cenário nacional.

O fenômeno tornou-se ainda mais evidente quando a cobertura passou a dissecar detalhes da aparição pública de Michelle, como roupas, gestos, expressões, símbolos religiosos, penteado. A discussão política foi substituída por uma leitura quase litúrgica da performance. A estética ocupou o lugar da estratégia. Isso revela uma dificuldade recorrente da esquerda contemporânea, que consiste em responder à agenda definida pelo adversário em vez de estabelecer a sua própria.

Essa é a essência da guerra semiótica contemporânea. Disputam-se menos argumentos do que regimes de visibilidade. Quem controla as imagens que circulam controla, em larga medida, aquilo que a sociedade percebe como relevante. Nesse terreno, amplificar continuamente os símbolos do adversário equivale, muitas vezes, a fortalecê-los. A principal lição desse episódio é de método: antes de interpretar a cena, é preciso perguntar quem escreveu o roteiro. Em tempos de hiperconectividade, essa pode ser a diferença entre disputar a narrativa e apenas desempenhar um papel que outro estrategista escreveu.

* Chico Cavalcante é jornalista

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